Eu, Neide e as crianças, nós todos, juntos, estávamos descendo rio abaixo, levados pela correnteza. Éramos pequenos pedaços de madeira num rio bem largo e vigoroso. Eu e a Neide, pedaços um pouco maiores; as crianças, pedaços menores. Alternávamo-nos nas posições: às vezes eu ficava à frente, outras vezes era a Neide. Mesmo as crianças, em algum momento, tomavam a dianteira. Entretanto sempre estávamos juntos e próximos uns dos outros, conforme a força da correnteza que nos levava.
Durante toda nossa vida como família, sempre foi assim. Bem, pelo menos até aquela longa noite de sexta-feira, na qual me vi subitamente encalhado na margem do rio, completamente preso. Nosso destino era percorrer todo o caminho até o oceano. Dirigíamo-nos para este alvo, juntos, seguindo nossa jornada até aquela fatídica sexta-feira, quando tudo mudou. Fiquei para trás, encalhado na margem, imóvel, enquanto a correnteza do rio continuou seguindo adiante, levando tudo e todos rio abaixo, seguindo seu rumo, indo para o oceano. Neide e meus filhos foram se distanciando, distanciando, levados adiante pelo fluxo da água. À medida que permaneci imóvel, impotente, preso à margem, vendo-os seguir rio abaixo, um terror tomou conta de mim. Nunca havíamos nos separado tanto! Estava eu condenado a ficar encalhado ali?
Já fazia algumas horas que sofria com uma dor de cabeça pulsante e permanente, que se estendia até o pescoço e me impedia de movê-lo, como um torcicolo não anunciado. Um pouco antes do sentimento de ser um pedaço de madeira encalhado me dominar, estava eu no quarto de hóspedes, tentando ocupar a minha mente com a arrumação do cômodo e, assim, atenuar aquela dor de cabeça insistente e incomum. Estava tentando me concentrar na seleção e descarte dos papéis antigos que abarrotavam a estante, quando me deparei com um recorte de jornal que discorria sobre aneurisma cerebral. À medida que fui lendo o recém-achado artigo, fui identificando cada um dos sintomas que inexplicavelmente vinha sentindo nas últimas horas. Fiquei confuso com a leitura, e após ponderar e hesitar por um instante, joguei o achado de lado. Segui adiante com minha limpeza, descartei mais alguns papéis, e então me deparei com uma revista antiga que havia guardado em virtude de a matéria de capa versar sobre educação infantil. Entretanto, no canto superior esquerdo da capa, vi uma chamada que alertava: “Cresce o número de AVCs (derrame cerebral) entre os jovens.” Abri a revista imediatamente e li a matéria de ponta a ponta. Mais uma vez, os sintomas foram sendo assustadoramente identificados: forte e repentina dor de cabeça, cansaço físico, distorção da visão, sonolência, fraqueza. Os dois artigos encontrados seriam apenas uma infeliz coincidência, ou encontrá-los era a resposta divina para a inquietação na qual estava imerso naquelas últimas vinte e quatro horas?
É importante ser dito que, na verdade, outros sintomas, como perda de memória, perda de movimentos de um lado do corpo e convulsões, eu ainda não havia sentido. Será que estariam a caminho? Eu sabia que algo muito sério estava ocorrendo com o meu cérebro, desde aquela pontada que senti na cabeça no início da manhã, mas eu não sabia exatamente o que era, pelo menos não até aquele momento. Por que aqueles artigos haviam caído na minha mão justamente naquela noite? Ao terminar a leitura da revista, veio-me aquele sentimento do pedaço de madeira e o rio. E veio de forma contundente e avassaladora, não havia mais como controlá-lo ou como lutar contra ele, pois falava tão alto e audível quanto as minhas orações silenciadas até então pela atividade de arrumar o quarto.
Como de costume, as crianças estavam correndo e gritando pela casa, apesar da hora avançada da noite. Enquanto minha cabeça latejava, mais forte agora devido a uma torrente de emoções que tinham vez ao tentar digerir o que eu havia lido, as crianças corriam frenéticas, felizes e barulhentas, alheias ao que eu estava enfrentando. Era fato que o sintoma mais assustador, o turvamento da visão, já havia passado (durou pouco tempo, talvez menos de dois minutos), mas os demais estavam se intensificando. Não havia dúvida de que algo muito sério estava acontecendo dentro da minha cabeça. Eu precisava compartilhar meus profundos temores com alguém!
Reuni forças e pus ordem na bagunça das crianças. Como um pai que se farta das brincadeiras infantis, proferi ameaças e disparei palavras de ordem. Eu precisava que as crianças fossem para a cama imediatamente, pois eu queria conversar com a Neide, com urgência. Ela estava na cozinha retirando a louça do jantar, ainda na expectativa de que minha dor de cabeça houvesse cessado.
Ao sentar a sós com ela na mesa da cozinha, o abrir a boca para relatar-lhe o que eu temia abriu também as comportas do meu coração. As lágrimas jorraram tão fortes e inesperadas que surpreenderam até a mim. Mas eu não tinha mais forças para impedi-las. Quando me dei conta, estava com a cabeça entre as mãos, e um rio vertia dos meus olhos. Eu estava preso na margem. Choramos juntos, acuados e assustados, naquela noite que viria a ser a mais longa da minha vida.
As dores de cabeça e do pescoço não me permitiram dormir, a não ser por curtos intervalos de poucos minutos, quando o cansaço me vencia. O medo de um derrame cerebral iminente acompanhou-me durante toda a madrugada até o clarear do dia. A Neide, dias depois, revelou-me que nestes intervalos em que eu adormecia, ela impunha as mãos sobre minha cabeça e orava. Estávamos lutando juntos.
Após estas longas vinte e quatro horas de crise, demos início a uma sucessão de tentativas de agendamento médico e atendimentos de emergência. Por fim passamos por um clínico geral e dois neurologistas. Agora, decorridos alguns meses desde a crise inicial, após uma ressonância magnética do crânio, uma angiorressonância magnética arterial intracraniana, uma angioressonância magnética arterial cervical, dois neurologistas e várias consultas, é sabido o que eu tive: o entupimento da artéria carótida direita (veia do pescoço que leva o sangue ao cérebro), decorrente de uma dissecção arterial. Um evento como esse geralmente resulta em um AVC (derrame cerebral), que comumente deixa sequelas.
Meu neurologista, após fazer uma longa entrevista e avaliar demoradamente as lâminas das ressonâncias e da angiografia, disse-me em tom solene: “Meu rapaz, você não faz ideia da sorte que teve. Você tem que agradecer a todos os santos e a todos os anjinhos do céu. Você é um rapaz de muita sorte.”
Ouvi atentamente sua avaliação, suas explicações e seus comentários. Enquanto ele me mostrava as imagens e calmamente explicava todo o processo pelo qual eu havia passado, fui revendo as vinte e quatro horas críticas, e então entendi o quanto meus temores e apreensões estavam adequados. À medida que ele ia calmamente explicando, recostado em sua poltrona, os dedos entrelaçados repousando sobre a mesa, o motivo das dores, a razão do pescoço rígido, a luta do cérebro pelo redirecionamento do suprimento de sangue, o olho esquerdo momentaneamente sem oxigênio, sentia que o peso que eu vinha carregando até ali saía das minhas costas. Fui ficando mais leve, mesmo com a garganta embargada e chocado com todos os detalhes revelados. E então, ali, durante aquela consulta médica, os galhos que me prendiam à margem foram me liberando. De repente, eu estava novamente em movimento. Estava no curso do rio novamente, descendo em direção ao oceano. Encontraria a Neide e as crianças em breve.
Enquanto caminhava em direção ao metrô, aquele rio que havia desaguado dos meus olhos voltou, mas agora o motivo era outro: eu estava descendo o rio novamente, não estava mais encalhado na margem. Estava novamente na correnteza, rio abaixo, na direção da Neide e das crianças, que eu já avistava adiante. Eu tinha um forte sentimento de que o rio não era mais o mesmo, afinal ninguém se banha no mesmo rio duas vezes. Mas eu também não era mais o mesmo. Estava de volta ao curso do rio e, pela primeira vez, enxergava-o como ele realmente é. Agora a Neide e as crianças já estavam ao alcance da minha visão, e pareciam estar diferentes. As crianças brincavam, pulavam, barulhentas como sempre, mas estavam diferentes. A Neide também estava. Tentei descobrir o que havia mudado: a roupa? O cabelo? As brincadeiras? Nada! Foi então que entendi. Elas não haviam mudado. Eu é que havia! E hoje isso faz toda a diferença.
Encontrá-los novamente nesta jornada foi um bálsamo restaurador. A experiência de ser deixado para trás foi marcante e ficará para sempre registrada em minha alma.
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Mário Vitor Franco. Jandira - 9/01/2012 ás 21:05
Achei tremendo esta esperiencia,que compartilha conosco. Deus sempre tem o melhor p/os seus,os sonhos dele há de se comprir em nossas vidas.Gra
ças a ele por ter acalmado mais está tempestada em suas vidas.Paz a todos os seus.
SONIA MONTEIRO - 13/01/2012 ás 10:01
Muito bonita a reportagem,hj me vejo sendo despreendida dos galhos e seguindo o curso do rio da minha vida.