Não há como não reconhecer: vivemos uma crise de excelência na sociedade contemporânea. Não na esfera das coisas. Estas vão muito bem, obrigado. Refiro-me ao que é da ordem do humano. Os relacionamentos quase nunca vão além do mínimo, atitudes magnânimas são como diamantes encontrados no lixo, dedicações apaixonadas a alguém ou a alguma causa constituem-se como artigo do passado, exemplos inspiradores de um tempo assumido como melhor. Alguns estudiosos aludem a um crepúsculo do dever, à agonia da moral, a um decréscimo da virtude.
Paradoxalmente, nunca se falou tanto em ética, o que poderia pressupor uma realidade efetivamente orientada por sua influência. No entanto, ética aparece relacionada a uma demanda quase desesperada por limites e controle, sinal de que alguma coisa não vai nada bem. Em todos os setores da sociedade, assiste-se a uma verdadeira fúria normatizadora para tentar conter a desonestidade, as incivilidades, a violência, a desconfiança acerca da idoneidade alheia.
Pouco otimista, o filósofo contemporâneo Gilles Lipovetsky afirma que qualquer que seja o sucesso atual das perspectivas éticas, não há reabilitação da cultura sacrificial do dever. A abnegação está liquidada, pois em nosso tempo triunfa uma moral indolor, que elege novos imperativos, tais como juventude, saúde, lazer, sexo, entre outros. Isso, segundo o filósofo, não significa que o caos tenha se instalado, nem que as fronteiras do bem e do mal tenham se turvado. As pessoas continuam desejosas de regras justas e equilibradas, não de renúncias a si mesmas; querem regulações e não sermões; sábios e não pais do pudor; continuam valorizando a responsabilidade, porém sem a obrigação de consagrar integralmente a sua vida ao próximo, à família ou à nação.
No âmbito da religião, a reação a esse encolhimento da excelência (caso não se tenha instalado a indiferença e quando Deus ainda não foi reduzido a gênio da lâmpada mágica) costuma ser a velha e conhecida tábua de mandamentos. O antigo paradigma do conhecimento do bem e do mal continua, em boa medida, a se sobrepor a um relacionamento orientado pela vida, pleno de comunhão saborosa. Quando se pratica o certo, que o livro de Deus, não raro confundido com ele mesmo, manda praticar, a relação é dispensável. E por que não seria, se o manual já deixou tudo tão claro? Todo o tesouro da pessoa de Deus acaba substituído pelo conhecimento do certo e do errado.
Um velho ditado diz que em terra de cego quem tem olho é rei. Um único olho, nesse caso, já bastaria. Ou até menos: um olho acometido de severa miopia ou com problema de catarata ainda assim faria a diferença. Num tempo de eclipse moral, como é o nosso, o politicamente correto, nos limites onde o Bem ainda tem algum valor, é rei. O irrepreensível, então, ganha relevos de divindade. Atitudes corretas, devidas e aguardadas assumem o status de dom, de favor, de benefício, de generosidade magnânima. A prática do dever se transforma em gratuidade, em dádiva. Assim, distanciamo-nos de um caminho mais excelente, que passa a ser visto como fantasioso, mitológico, irrealizável.
É hora de ousarmos espanar a poeira desse caminho, cortar o mato alto que o encobria e voltar a desejar pôr os pés nele. Só o Espírito Santo pode causar uma insatisfação em nós e evitar que nos contentemos com os bons padrões morais que julgamos ter alcançado. Quem se contentava em enxergar com um olho precisa voltar a ver sentido em desejar enxergar com os dois. Quem se satisfazia em ver tudo embaçado deve saber que há uma visão bem diferente dessa imagem sem foco e turva.
Esta edição, como tema principal, tem o objetivo de contrastar a vida apenas irrepreensível e a vida de santidade. Podemos tomá-las indistintamente como sinônimas, o que a religião vem fazendo há séculos, e passar pela vida sem sequer imaginar o caminho de santidade que Deus delineou para a comunhão. Vale destacar, de saída, que a vida apenas irrepreensível, quando não se derivou da santidade, é uma conquista moral do homem. A vida de santidade, diferentemente, é uma realidade que Deus conquista em nós. O apenas irrepreensível – apesar de tudo o que o coloca muito acima do ordinário e o cobre de louvor – não consegue acessar o caminho da santidade. Isso parece claro em Efésios 1.4: fomos escolhidos em Cristo, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis (nesta ordem: primeiro santos; depois irrepreensíveis). Desconsiderada a fonte única capaz de comunicar santidade – a relação profunda com a Trindade –, restam os bons arranjos humanos que nos tornem cidadãos honrados e moralmente ajustados. Uma aquisição e tanto, sem dúvida, porém ainda segundo os padrões do reino deste mundo.
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