No artigo anterior, visitamos algumas cenas bíblicas em que pudemos perceber um contraste entre a vida apenas irrepreensível e a vida de santidade, tomando como fronteira mais evidente a presença ou a ausência da natureza de doação que um relacionamento com o Deus que se dá proporciona. Queremos agora explorar outros aspectos dessa distinção. As oposições, nem sempre muito fáceis de serem estabelecidas com nitidez neste assunto (as fronteiras, já o dissemos, são bem tênues), vão lançar luz sobre o fato de que o reino de Deus começa quando a justiça dos escribas e fariseus é excedida. A dificuldade maior é que estamos trabalhando com a diferenciação de duas posturas altamente positivas. Deixar de ser santo para ser “somente” irrepreensível é ainda continuar gozando de uma condição pra lá de favorável. E, num tempo como o nosso, em que o bem e o dever são átonos, o saldo do irrepreensível é incalculável. Insistimos, porém, no fato de que muitos fazem da vida irrepreensível um alvo (e deveriam fazer mesmo), mas não elegem o caminho da santidade para chegarem a ela. A santidade é uma conquista do Deus Santo em nós; a irrepreensibilidade, consequentemente, apenas torna manifesto e patente aos olhos aquilo que já é uma realidade em nosso interior pela via relacional da santidade.
1 A máxima da santidade, tomada emprestada a Santo Agostinho, seria “Ame e faça o que quiser”. Vale lembrar que do amor, esse caminho sobremodo excelente (1 Co 12.31), depende toda a lei (Mt 22.40). Por sua vez, a máxima da vida apenas correta, emprestada ao filósofo contemporâneo Comte-Sponville, seria: “Aja como se amasse e faça o que deve ser feito”. Essa é a máxima da moral, um simulacro do amor. Poderíamos dispensar a moral se o amor fosse uma viva realidade presente em e entre nós. Nenhum imperativo nos faria agir melhor do que as recomendações desse sublime sentimento. Mas como somos falhos no amor, a moral é-nos tão necessária, lamenta o autor.
2 O irrepreensível e o santo cumprem a lei, mas normalmente é o segundo quem está disposto a se sacrificar e ir além dela. Podemos ilustrar esse contraste lembrando um acontecimento em que esteve envolvido o lendário e pitoresco prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia. Quem ousaria participar de batidas em bares ilegais, levar orfanatos inteiros para partidas de baseball e ir às rádios ler quadrinhos para as crianças? Numa noite fria de 1935, “Little Flower”, como era conhecido o prefeito, deu folga a um juiz de uma região pobre da cidade e assumiu, ele mesmo, a tribuna. Uma senhora esfarrapada foi trazida a sua presença acusada de roubar um pão. Sua justificativa era de que não podia deixar morrer de fome seus dois netos. O padeiro, no entanto, estava inflexível e exigia uma lição. LaGuardia, dirigindo-se à mulher, disse que precisava puni-la, já que a lei não abria exceções. A mulher devia pagar dez dólares ou cumprir pena de dez dias na cadeia. Mas, ato contínuo, enquanto proferia a sentença, já estendia uma nota de dez dólares e pagava a multa em lugar da mulher. A seguir multou todos os presentes àquele tribunal em cinquenta centavos por não se envergonharem de viver numa cidade onde uma pessoa precisava roubar um pão para não ver morrer de fome seus netinhos. A arrecadação somou cerca de 47 dólares, cinquenta centavos dos quais doados pelo envergonhado dono do estabelecimento que trouxera a ré ao tribunal.
3 O santo vive sendo conquistado; o apenas irrepreensível vive se esforçando para conquistar.
4 O santo descobriu que precisa ser constantemente servido por Jesus, ou a santidade não será alimentada nele. Aqui, um olhar descuidado pode nos acusar de presunção. Mas vejamos: Pedro demorou-se em descobrir isso durante a última ceia. Jesus quis lavar os seus pés, mas o discípulo endureceu. Então Jesus disse a Pedro que este não teria parte com ele se não saísse da defensiva e permitisse que seus pés fossem lavados. O apenas irrepreensível está sempre recolhendo os pés, pois aprendeu que melhor é servir do que ser servido. Isso é verdade e se alinha com o espírito bíblico. Porém estou cada vez mais convencido de que só vamos aprender a servir sendo servidos. Ora, esse é o curso natural da vida: antes de nos casarmos e servirmos nossos filhos, fomos por longos anos servidos pelos nossos pais e avós. Na igreja, antes de servirmos pessoas e ministrarmos a elas, fomos acolhidos, discipulados, acompanhados por tempo considerável. Primeiro vem o ser servido, somente depois passamos a servir. É melhor servir, mas desde que nunca desaprendamos o caminho de Jesus (por meio de nossos irmãos) nos lavando os pés, afinal estes sempre se empoeiram. Eis um aprendizado em que nunca vamos adquirir autossuficiência.
Alguém perguntaria: por que precisamos ser servidos constantemente pelos nossos irmãos? Bem, podemos ser reconhecidos como aqueles que lavam os pés dos outros e fazermos isso a vida toda de forma arrogante, pretensiosa, acumulando louros por tal serviço. E pior: podemos continuar como eternos desconhecidos para o dono dos pés que costumeiramente lavamos. Porém, quando as posições se invertem e “baixamos a guarda” para que alguém entre em nossa vida e “carregue a nossa cama”, esse alguém toma contato com aspectos e realidades que jamais viriam à luz se continuássemos somente nos abaixando e nos oferecendo para lavar os pés de outros. Jesus sabia muito bem o que significava “tomar parte comigo”, quando disse isso a Pedro. A comunhão é uma história que se tece no serviço, e esse serviço tem duas mãos: servimos, mas também somos servidos. Aquele que só serve está em perigo. Ser servido nos protege com humildade e nos ensina como fazer quando for a nossa vez de servir.
5 O santo é amigo de Jesus; o apenas irrepreensível é servo. Jesus disse que seríamos seus amigos se fizéssemos aquilo que ele manda. Podemos ler isto e ficar num beco sem saída: com que recursos obedeceríamos a fim de nos tornarmos seus amigos? Mas aquilo que ele nos manda fazer é: “que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15.12), afinal “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (v.13). Ele nos ama e se dá a nós, a fim de que respondamos com semelhante inclinação. Amados por ele, podemos também dar a própria vida por outros. Jesus continua: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.15). Ser servo é bom. Não percamos de vista que ser irrepreensível não é algo negativo, muito pelo contrário. Mas o caminho de Deus é mais excelente, vai além do relacionamento servo-senhor. O servo fica privado dessa intimidade que veicula o dar de Deus, dádiva que nos torna generosos, compassivos, misericordiosos, justos. O servo não sabe o que faz o seu senhor (não toma parte nisso, não experimenta), já o amigo entra no mesmo círculo que envolve o Pai, o Filho e o Espírito, participa dos segredos divinos.
Os vínculos verdadeiros e significativos nesta terra são tão importantes na concepção do Pai que Jesus chega a dizer: “E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos” (Lc 16.9). Para além de qualquer esfera de vínculos que a religião possa apregoar e assumir como espiritualmente legítima, Deus autentica amizades que, de forma espantosa, traduzem nada ortodoxamente uma fagulha da grande amizade eterna da Trindade.
6 Para o apenas irrepreensível a vida eterna é uma conquista futura atrás da qual o seu comportamento depois da conversão está. Para o santo, “a vida eterna é esta: que te conheçam a ti e a Jesus Cristo que enviaste” (Jo 17.3). Ou seja, vida eterna é algo relacional e começa já. Do contrário, não se justificará num tempo posterior.
7 O santo se reconhece em constante transformação, num estado de inacabamento; o apenas correto se presume pronto, como se nada precisasse ser acrescentado a ele.
8 O apenas correto conta com a observância da Lei para se afastar do pecado; o santo conta com o relacionamento para que o pecado perca força dentro dele.
9 O santo valoriza mais a realidade; o correto, a imagem projetada. O estilo de vida do apenas correto faz com que as rachaduras teimosas sejam preenchidas com cera. O santo já desistiu de se preencher com cera. Em outras palavras, ele é sem cera (sincero). Aqui cabe uma explicação. O conceito de sincero remonta à atividade profissional dos oleiros na antiguidade. Tendo trabalhado toda uma jornada de um dia na modelagem da argila para a fabricação de um utensílio de barro, o artesão levava seu produto ao forno para cozimento. Qual não era a surpresa de muitos quando, depois de queimado, o utensílio apresentava fissuras. Possivelmente, uma pedrinha, misturada à argila, escondera uma pequena cavidade que o fogo posteriormente revelou. Bem, vasos rachados eram sinônimos de infiltrações, já que teriam problemas na retenção dos líquidos que deveriam acondicionar. Apresentar semelhante deformidade aos patrões seria o mesmo que perder o já tão pequeno salário de um dia exaustivo de serviço. O “jeitinho” era preencher as rachaduras com cera e depois aplicar a tinta ornamental para disfarçar o defeito. Alguns compradores, no entanto, conheciam essa sutileza dos oleiros e tinham meios de descobrir se os vasos possuíam cera ou não, do que se deduz que os vasos que continham somente barro queimado eram os “sem cera” (seus artesãos, portanto, considerados trabalhadores sinceros); já os vasos que tinham suas imperfeições compensadas com a aplicação de cera denunciavam a insinceridade de seus fabricantes.
A Bíblia não esconde o fato de que somos vasos de barro (2 Co 4.7), alguns bem rachados. Até aqui nenhum problema ou novidade. A diferença está no fato de que muitos não se assumem como tal e disfarçam o tempo todo, utilizando quanta cera seja necessária para projetar uma imagem irreal. O santo reconhece sua verdadeira condição e sabe que a excelência vem de Deus, e não há rachadura que se torne obstáculo para o conteúdo que Deus deseja despejar em seu interior. Diga-se de passagem, o nosso tempo caracteriza-se por uma febre generalizada que leva as pessoas a esconderem os sinais, as imperfeições, e a criarem uma versão tanto virtual quanto mentirosa de si mesmas.
10 O apenas irrepreensível acha que tem que converter o mundo; o santo sabe que precisa amar as pessoas como é amado. Sobre isso o judeu-americano Chaim Potok nos traz um grande ensinamento. Desde criança, ele dizia à mãe que queria ser escritor. Quando chegou o momento de tomar providências no sentido de seu encaminhamento acadêmico, sua mãe aconselhou-o a direcionar suas escolhas para a medicina. Que ele fosse um neurologista, pois poderia ganhar dinheiro e impedir que as pessoas morressem. Chaim, no entanto, manteve-se inarredável: queria ser escritor. A discussão estendeu-se por muitos meses, até que, às vésperas da escolha, sua mãe, enquanto o filho passava férias em casa, foi incisiva e deu a entender que não admitia réplica: ele deveria tornar-se um neurologista, pois além de adquirir prosperidade, contribuiria para impedir que as pessoas morressem. Chaim Potok, então, bradou sua convicção para a mãe: que ela soubesse, de uma vez por todas, que ele não queria impedir que as pessoas morressem. Ele queria ensiná-las a viver, por isso não abriria mão de se tornar um escritor. Ele venceu: tornou-se um exímio contador de histórias e, mesmo depois de sua morte, sua contribuição ainda é eloquente.
Se não prestarmos atenção, acharemos que impedir que as pessoas morram e ensiná-las a viver são a mesma coisa. Mas há um abismo entre elas. A religião fala o tempo todo em livrar as pessoas do inferno, e não raro sua postura é defensiva. As pessoas têm que ser preservadas de tudo. Passam a vida se protegendo, até perceberem que se esqueceram de viver. O caminho da santidade, mesmo quando não nos dá muitas respostas, ensina que a vida vai se fazendo e se dourando de significados na travessia. O caminho também se torna um fim proveitoso. É assim que as pessoas cobrem o nu, visitam o encarcerado, dão de comer ao faminto e nem se apercebem, pois não estão contabilizando dividendos para a eternidade. Estão simplesmente vivendo, e aí vem Jesus e lhes diz que elas têm passagem livre porque fizeram tudo isso (Mt 25.31-46). Ou seja, a eternidade começou para elas há muito tempo. Elas não esperaram a eternidade chegar para só então, protegidas, começarem a viver.
Precisamos entender que as pessoas não têm que ser objeto de nossa catequese, mas da nossa amizade, do nosso investimento para que descubram como é que se vive verdadeiramente aqui debaixo do sol. Só amaremos, porém, se nos sentirmos extravagantemente amados. Até que estejamos certos do amor do Pai, continuaremos usando as pessoas ao redor para satisfazer as nossas necessidades.
Os de fora são os que melhor discernem o santo do apenas correto: eles sabem que a maior parte das tentativas de compartilhar o amor de Deus deste último é motivada pelo sentimento de culpa que o acometeria se não o fizesse. Os de fora, em vez de se sentirem amados, sentem-se explorados e manipulados por alguém que quer ganhar mais uma condecoração por beneficiá-los.
As pessoas precisam muito mais de alguém com quem elas possam se identificar do que de alguém para admirar. Nouwen, McNeill e Morrison, no livro “Compaixão” (Paulus Editora), ilustram bem esse fato com um acontecimento num circo de New Haven, em Connecticut, protagonizado por um dançarino francês franzino e ágil que se apresentava na corda bamba. A evolução inicial de seu número não chamava muito a atenção, sobretudo porque, enquanto cruzava a distância entre duas pequenas torres, andando sobre um cabo entre elas estendido, ia jocosamente dançando e arrancando muitos risos da plateia. Mas havia mais: reservada para o final do número, uma descida, em que ele se equilibrava sobre um cabo entre a torre e o chão coberto de areia, paralisou os espectadores. A tensão era crescente; os olhares não se despregavam do equilibrista. Estavam todos tão absortos que nem se deram conta de que, já por cinco segundos, o artista andava no chão. Somente quando este se recompôs e olhou aliviado para a plateia é que os aplausos prorromperam e a tensão geral se dissipou.
Aquele foi realmente o momento artístico real, porque Philipe, o artista, conseguira fazer com que os espectadores olhassem com admiração para uma exibição que todos também podiam representar: andar com os pés no chão! O grande talento deste artista da corda bamba não foi tanto poder despertar a admiração para um ato que ninguém conseguia imitar, mas poder fazer com que olhássemos com espanto para algo que todos podemos fazer juntos. (NOUWEN, McNEILL, MORRISON, 1998, p. 99-100).
Os aplausos para Philipe não eram apenas a expressão de excitação diante de um feito tão especial (dançar, equilibrando-se, entre duas torres), mas uma demonstração de gratidão ao artista por ele lembrar ao seu público que é possível caminhar juntos, com segurança, com os pés no chão.
11 O apenas irrepreensível tem medo de se contaminar com o mundo e gasta uma energia enorme no embate com o diabo; o santo subverte e confunde o mundo do maligno, deixando o inferno em polvorosa. Este contraste nos lembra a polêmica causada por uma visita do Santos Futebol Clube a uma instituição para crianças com deficiência mental severa, na Páscoa de 2010. Alguns atletas, por motivos ligados a suas crenças, não desceram do ônibus, estacionado na porta da instituição, quando souberam se tratar de uma entidade espírita. Refletindo sobre este acontecimento, o pastor Ed René Kivitz escreveu um pequeno artigo (“No Brasil, futebol é religião”), mostrando como a espiritualidade precisa superar a religião. Em sua opinião, quando discutimos quem vai e quem não vai para o inferno, se Deus é a favor ou contra o homossexualismo, se o correto é reencarnação ou ressurreição, se a teoria de Darwin ou o livro de Gênesis é que dá as verdadeiras respostas, entre outras coisas, nós estamos discutindo religião, e acabamos afastando as pessoas e promovendo a intolerância e, não raro, o extermínio. Mas se nosso foco está em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, estamos no horizonte da espiritualidade, e então promovemos a justiça e a paz, agregamos pessoas, aproximamos os diferentes e nos unimos para superar o sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, não importa a que raça, gênero ou religião pertençamos.
A religião faz com que fiquemos no ônibus; a espiritualidade, por sua vez, nos impulsiona a descer e dar um ovo de páscoa para uma criança necessitada.
12 O apenas irrepreensível tem muitas expectativas sobre os outros e sobre si mesmo; o santo já se desiludiu, num e noutro caso. As expectativas, principalmente aquelas que mantemos em relação às outras pessoas, nos impedem de amar livremente; elas manipulam as pessoas para que se adaptem ao nosso jeito de ser.
13 O caminho da santidade nos leva muito mais longe que o da lei. Vemos isso uma infinidade de vezes, na Bíblia e na vida. Podemos ficar com um exemplo, extraído do livro “Deus me ama”, de Wayne Jacobsen. Depois de descobrir que seu marido era homossexual, estava com Aids e decidido a ir morar com o parceiro, uma mulher cristã divorciou-se dele. Anos mais tarde, quando a doença se agravou, esta mulher entendeu que Deus lhe estava pedindo que cuidasse de seu ex-marido. Ela se mudou para sua casa e cuidou dele até o final. Mas isso não foi tudo. Depois da morte do ex-marido, a mulher permaneceu na casa para cuidar do parceiro dele, que também estava morrendo. Na próxima década, ela se ocupou do tratamento de mais de 60 pessoas que haviam contraído AIDS e viu todos eles descobrindo a fé. Atualmente ela se dedica à reforma de um hospital para acolher doentes e viaja pelo mundo ajudando pessoas com AIDS.
De fato, ficamos boquiabertos diante de caminho tão elevado. Em contrapartida, a linearidade do caminho do apenas correto possivelmente o encerrará numa amargura paralisante quando se deparar com situação semelhante à que viveu essa senhora cristã.
14 Para o apenas irrepreensível, amar o próximo é um mandamento que precisa ser obedecido; para o santo, é um transbordamento de sentir-se amado. Vale lembrar que quando Jesus está escolhendo quem pastoreie suas ovelhas, não pergunta: “Tu guardas os meus mandamentos?” Ao contrário, está interessado em saber se o candidato está apaixonado por ele. Isso fará toda a diferença. Como é possível pastorear alguém se o que nos restar for somente um rol de mandamentos para transmitir ao interessado? Se estivermos profundamente envolvidos com o amor de Deus, transbordaremos isso nos nossos relacionamentos e serviço.
15
O apenas correto ouve: “Anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17.1) e registra dois mandamentos para observar: esforçar-se para andar na presença de Deus e não medir consequências para tentar ser perfeito. O santo ouve isso e entende o seguinte: trata-se de um convite para que Deus faça nele aquilo que ele mesmo não pode. Já que Deus me convidou para andar com ele, o santo pensa, sua presença vai me curar da imperfeição. Paulo diz em Filipenses 3 que não se julgava perfeito, mas estava caminhando para o alvo, em busca de conquistar aquilo para o que tinha sido conquistado. Ele só podia se lançar nesta empreitada porque primeiro se sentia conquistado. Isto está no versículo 12. Três versículos adiante, Paulo afirma, numa aparente contradição: “Todos, pois, que somos perfeitos…” (v.15). Como perfeito, se há pouco disse o contrário? É que tendo sido conquistado, agora Paulo estava correndo uma carreira debaixo dessa paixão. Ele não havia chegado ainda, mas isso não era um problema. Perfeito para Paulo não era uma pessoa completa, muito experiente, alguém que já houvesse amadurecido o suficiente e terminado com louvor o seu trabalho. A perfeição não era um atributo do conquistado, mas daquele que conquista. Logo, concluída a sedução, estamos iniciados num caminho cujo final será a perfeição. Basta andar na presença do Perfeito, e seremos perfeitos, não importa que uma jornada longa de aperfeiçoamento ainda esteja pela frente.
16
O correto está empenhado em ajudar Deus a lhe dar o que entende que Deus quer lhe dar (com isso, vai fabricar muitos Ismaéis e curtir muita dor de cabeça). O santo começou a entender que o dar de Deus precisa do reconhecimento, por parte do homem, de que este apresenta lacunas, e para não restar dúvida nenhuma acerca da origem do benefício que preenche as lacunas, o produto final é “descanso”, “alma serena”. Não é isso o que significa Isaque, um motivo para rir? A religião ata fardos pesados às nossas costas, produz amarguras, deixa-nos constantemente culpados, sobrecarregados, insatisfeitos. Mas quando aceitamos o Isaque que vem de Deus – e não o que preparamos para nós mesmos –, temos um motivo para fazer a alma dar boas gargalhadas.
Conclusão
O dar de Deus é extravagante e nos deixa profundamente agradecidos. Recebemos o seu melhor e, mesmo sabendo que somos totalmente indignos do “investimento”, não ficamos culpados. Deus não é o tipo de pessoa que nos aponta o dedo e ameaça: “Você me deve essa!” O dar de Deus é tão misterioso e elevado que jamais vai nos comunicar a impressão de que estamos lhe devendo alguma coisa. Ele sabe dar. E é pelo fato de ser um doador eterno e não nos cobrar por aquilo que nos dispensa, que acabamos irremediavelmente seduzidos.
Podemos ver essa liberalidade de Deus em todas as Escrituras. Eu destacaria, para finalizar, a ação do pai do filho pródigo. A meu ver, esta parábola tem sido intitulada de maneira incorreta por séculos. Não se pode negar que ela apresenta um filho gastador, que dissipa negligentemente tudo o que recebera do pai. Mas há algo muito mais escancarado e extravagante: o grande pródigo da história é o pai. Seu filho resolveu gastar dissolutamente, é verdade. Porém o pai gastou ainda mais. O pai esbanja acolhida, amor, perdão, misericórdia, compaixão. Há um desperdício de graça acontecendo que faz o esbanjamento do filho parecer avareza. Esse é o Deus cuja natureza é dar. Bem-aventurada é Sua criação por isso.
Pr.Antonio Jacareí SP - 10/12/2011 ás 19:32
Parabens pela abordagem. Achei profundo e fui edificado, Que Deus o inspire sempre mais. Abraço.