Um Lugar Chamado Nárnia – Parte IV

Por:Renata Ribeiro Arruda Data: 17/02/2011
Um Lugar Chamado Nárnia – Parte IV

Nosso tamanho é proporcional ao de Aslam

Este artigo é o quarto de uma sequência de sete sobre “As Crônicas de Nárnia”, criação do escritor irlandês C.S.Lewis, que teve, recentemente, três episódios da série adaptados para o cinema: “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”, “Príncipe Caspian” e “A Viagem do Peregrino da Alvorada”.

Quando li pela primeira vez o Príncipe Caspian, me senti um pouco eufórica. É que no livro anterior, O cavalo e seu menino (o terceiro da série), os quatro irmãos, Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, têm pouca participação. No entanto, o livro seguinte começa numa estação rural onde os irmãos Pevensie aguardavam um trem para o colégio. O retorno de Nárnia pelo guarda-roupa mágico tinha acontecido há um ano. A espera pelo trem era nada animadora, afinal, após o reinado em Nárnia, o mundo normal tinha se tornado bem sem graça.

Mas é ali na estação que as crianças são surpreendidas por sensações misteriosas que as levam novamente até o país de Aslam. De repente, avistam uma praia arenosa e bela da qual não se recordavam. Depois de pernoitarem no local, descobrem tratar-se de um lugar já conhecido, mas que sofrera muitas transformações. O fato é que dezenas de anos em Nárnia podem corresponder a apenas um em nosso mundo. Era o que tinha acontecido.

Durante os muitos anos que estiveram fora, Nárnia fora dominada por Caspian I. O príncipe Caspian, protagonista desta história, é filho de Caspian IX. Seu pai morrera quando ele era ainda criança e, então, seu tio Miraz tornou-se o rei provisório. Entretanto Miraz quis extinguir os verdadeiros narnianos, que viviam agora na marginalidade.
Caspian havia sido criado por uma ama, que lhe contara diversas histórias sobre a antiga Nárnia: de um tempo em que os animais falavam, as árvores eram habitadas por dríades¹, e as águas por náiades²; os bosques eram povoados por faunos, centauros e outras criaturas narnianas. Quando seu tio Miraz ficou sabendo do fato, tratou de despedir a criada e contratou outro educador para o menino.

O novo preceptor, doutor Cornelius, era um meio-anão, filho de anão³ e humano, mas passava por homem. Ele tem importante significado para nós, representa os guardadores da palavra, o que talvez seja a figura do mestre. Conhecendo muito sobre a história de Nárnia, ele a mantinha segura em tempos de repressão e sabia a maneira correta e oportuna de agir. Foi Cornelius quem salvou Caspian da morte após perceber a aproximação das estrelas, um sinal de novos tempos.

Nascido em Nárnia, mas ignorante sobre a magia que regia aquele reino, marcado por uma infância sem os pais e pelo afastamento da ama, Caspian era herdeiro do trono. Pedro e seus irmãos, embora de outro mundo, já haviam lutado pela salvação de Nárnia, conhecido a ressurreição de Aslam e sido reis por muitos anos. Agora, estes humanos de histórias tão diferentes precisam se encontrar para novamente resgatar Nárnia de maus tempos.

Antes de se encontrarem, um conselho de guerra é formado por antigos narnianos, que se preparam para enfrentar Miraz. E mais uma vez os ministérios cristãos ficam evidenciados por meio das criaturas narnianas: os texugos e castores eram responsáveis por relembrarem as profecias, esperando com confiança seu cumprimento. Os centauros figuram o profeta, que percebe o tempo de Deus:

Eu observo os céus, texugo, porque compete a mim vigiar, como a você compete não esquecer. Tarva e Alambil encontraram-se nos salões do firmamento, e na terra voltou a surgir um filho de Adão para governar e dar nome às criaturas. A hora do combate soou.

Um dos mais interessantes momentos da história é o reencontro de Lúcia com Aslam. Talvez por sua simplicidade e dependência, ela é quase sempre a primeira a encontrar o Leão. Após os irmãos Pevensie tomarem um caminho tortuoso, a pequena Lúcia pergunta se teria sido diferente caso ela tivesse tomado o caminho desejado por Aslam, ao que o Leão responde:

– Dizer o que teria acontecido? Não, a ninguém jamais se diz isso.

Nós temos sempre a mania inútil de questionar a Deus como teria sido SE aquilo não tivesse acontecido, SE não tivéssemos feito desse modo, se se se [...]. Deus não trabalha com SEs, ele trabalha com fatos e quer atenção para cada orientação. Ele jamais nos dará o próximo passo, se não tivermos executado a primeira ordem.

Outro erro cometido com frequência, e pontuado por Lewis, é a religiosidade. Temos a tendência de acreditar que Deus irá agir sempre do mesmo modo, por isso gostamos de reproduzir ritos. Se Deus fala conosco de um modo, tratamos de repetir a sequência para ouvi-lo novamente. Bobagem! Deus é criativo e inovador!

Lúcia representa bem essa nossa atitude ritualística. Ela confessa a Aslam que esperava que ele viesse rugindo e espantando os inimigos como da primeira vez. Ele rebate: “as coisas nunca acontecem duas vezes da mesma maneira”.

Por fim, gostaria de ressaltar a visão de Lúcia ao encontrar Aslam:

- Aslam, como você está grande.
[...]
- À medida que você for crescendo, eu parecerei maior a seus olhos.

Esta é a proporção: quanto mais desenvolvemos nossa espiritualidade, maior Deus se torna aos nossos olhos e maior será sua presença em nosso interior. Nossa grandeza e nosso valor são proporcionais ao tamanho de Deus em nós.

¹ Ninfas das florestas e das árvores; espíritos femininos da natureza.
² Ninfas aquáticas, semelhantes às sereias, com o dom da cura e da profecia.
³ Os anões reais de Nárnia não têm sangue humano.
Ilustração: Pauline Baynes

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Comentários

1 Comentário - Adicionar um comentário

  1. 1

    Camila Christie - RJ - 27/03/2011 ás 16:02

    Muito interessante a obra de Lewis, com certeza existem muitas lições que podemos tirar delas…
    a pergunta é: onde está o 5º artigo !?

    estou ansiosa pelo próximo!
    O 4º foi de fato muito oportuno!
    Paz…

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