Sobre a mensagem “Vivendo como filhos amados de Aba”

Por:Wayne Jacobsen Data: 2/02/2010

CONFERENCISTA: E se eu não me sentir amado? Eu sei na minha mente que sou amado por Deus e talvez até tenha vivido momentos em que ele revelou a mim o seu amor, mas não sinto isso hoje, não estou vivendo nisso hoje. O que eu faço?

WAYNE: O amor não é um sentimento. Não importa se você se sente ou não amado pelo Pai. Você é amado. Acreditar ou não nisso não muda o fato.

Uma das perguntas mais frequentes que fazem a mim é: “Como eu pego aquilo que está na minha cabeça e coloco no coração?”. Do Iluminismo para cá, já são quase 400 anos em que o homem moderno procura considerar o intelecto como senhor. O nosso raciocínio é uma parte muito importante da pessoa que Deus criou, mas pode nos enganar. A mesma coisa pode ser dita das nossas emoções. Em Romanos 5, Paulo escreve sobre o amor de Deus, que foi derramado no coração pelo Espírito Santo. Ele não está se referindo ao coração físico, mas ao cerne do nosso ser, a quem nós somos. O seu coração já sabe que você é amado, mas a razão começa a discutir: “Não, eu não. Eu não sou suficientemente espiritual. Eu ainda luto com o pecado, eu ainda tenho dificuldades com dúvidas. Como é que Deus pode me amar?” E a nossa mente acaba nos convencendo de que não merecemos o amor que o coração já conhece que é verdade.

Se nós queremos crescer nessa experiência de viver como pessoas amadas, vamos ter que viver a partir do coração, e não baseados na nossa mente. Teremos que permitir que o coração informe o intelecto ao invés de tentar fazer a cabeça convencer o coração. A cabeça convencer o coração depende de nós. E será que ainda não notamos que não temos o poder de mudar a nós mesmos? No máximo, conseguimos melhorar por um tempo o comportamento quando nos empenhamos um pouco mais.

A essência de Jesus ter vindo significa o seguinte: você não tem o poder de se transformar. Se tivesse, ele não precisaria ter vindo. Mas de alguma forma a religião continua insistindo: “depende de você, basta ser bom cristão”. Tudo se resume a fazer algumas coisas e deixar de fazer outras. Somos convencidos de que temos que nos esforçar para fazer o que é certo.

Com Jesus, a proposta é outra: ele quer que você ame como foi amado. Mas a transformação acontece dentro de você, não porque obtém sucesso ao tentar ser bom, mas porque aprendeu a viver como uma pessoa amada. E aprender a viver como uma pessoa amada é o que Deus faz em você, não o que você faz por ele. Você não precisa tentar viver como uma pessoa amada. A única coisa que pode fazer, quantas vezes você quiser, quantas vezes pensar nisso, é pedir: “Pai, eu quero conhecer o teu amor. Pai, mostra o teu amor por mim de uma forma que eu possa entender”. Não se trata de uma fórmula mágica para repetir, mas de entrar em contato com o verdadeiro clamor que está no seu coração. Deus conquista esse espaço de maneiras muito diferentes. Pode ser através das palavras de um irmão ou de uma irmã, de alguma coisa que você leia na bíblia ou num outro livro. Pode ser por meio de alguma coisa que esteja ouvindo na televisão, no rádio. De repente, Deus começa a lhe mostrar que você é amado.

Desde o jardim do Éden, fomos criados para conhecer e falar a linguagem do amor, mas a queda roubou isso de nós. Ao invés de confiar no Pai, Adão e Eva correram para se esconder. “Não é mais seguro ficar perto de Deus. Ele está irado. Nós estragamos tudo”, eles pensavam. É mais fácil acreditar na voz que diz: “Você não está se empenhando suficientemente, eu não amo você” do que naquela que vem de Deus: “Eu sou louco por você. Eu amo você. Você é meu filho, minha filha, você é o meu prazer”.

Ele falou isso no seu coração, você sabe que é verdade. Mas então você se perde numa circunstância e passa a pensar que Deus só o ama quando você merece. Se o amor é alguma coisa que você pode ganhar por mérito, então o amor é uma coisa que você pode perder. Mas não há como perder o amor desse Pai.

O pai do filho pródigo não ama menos o seu filho quando este está desperdiçando a herança com as meretrizes. Eu creio que a parábola nos ensina o seguinte: o amor do Pai é a única coisa constante no universo inteiro. Este Pai é amor, ele ama você especialmente. Não é porque ele ama todos os humanos, e você, por ser humano, acaba obrigatoriamente entrando no pacote. Não é assim. Deus ama você no singular. O espírito de adoção que clama “Aba” é a sua realidade, e Deus quer que você saiba disso e viva isso. Aprender essa realidade é uma jornada de uma vida inteira. Não é um botão “liga-desliga”.

Antes de “A cabana” entrar na minha vida, eu estava trabalhando num livro chamado “A jornada em Deus”. Estávamos chamando-o de “o livro antidiscipulado”, pois ele não dava receitas de como construir um relacionamento com Deus. Esse livro é sobre como reconhecer Deus edificando um relacionamento com você. E é isso que tem que mudar na nossa maneira de pensar. Viver como uma pessoa amada não é o que eu ganho por mérito. É um dom que Deus nos dá. Se eu tivesse uma criança de dois anos aqui, a minha netinha Lenzie, por exemplo, e quisesse ter um relacionamento com ela, eu teria que fazer todo o trabalho para isso acontecer. Eu tenho que entrar no mundo dela, brincar com princesas e tartarugas e ler livrinhos para ela que me dão um enfado terrível. Eu tenho que envolvê-la, ensinar-lhe uma nova linguagem, participar da sua vida. Só então ela vai crescer e entrar nessa realidade. Se isso é verdade para mim e uma criancinha de dois anos, quanto mais entre o Deus eterno e a humanidade caída.

Deus tem que me ensinar a falar a linguagem dele, a viver como uma pessoa amada. Ele precisa consertar todos os circuitos quebrados na minha maneira de pensar que me fazem considerar a mim mesmo uma pessoa não amada. Isso é uma jornada, pode levar meses, às vezes anos, mas ele conquista isso em meu coração pela obra de Jesus.

C.: Como você vê a realidade de Atos 5, o conhecido texto de como Deus julgou de forma dura a Ananias e Safira? Três horas depois da morte de Ananias, com tempo suficiente para refletir sobre o ocorrido e amar Safira, preferindo apenas exortá-la, Pedro mantém a posição inicial, e ela é julgada por Deus ali.

W.: Sempre que falo sobre o amor de Deus, eu ouço essa pergunta. Parece que temos uma facilidade maior para estar em contato com as escrituras que tratam do temor do que com aquelas sobre o amor. Tudo o que Jesus fez para nos conquistar para um relacionamento de amor, tudo o que ele disse sobre ser nosso amigo parece se desvanecer diante de um incidente que provocou a morte de duas pessoas e deixou a igreja atemorizada. Mas isso não anula o que o restante do Novo Testamento traz. Tampouco significa que Ananias e Safira eram odiados. Eles eram amados por Deus. E não foi Pedro quem os matou; o Espírito Santo foi responsável por isso.

Billy Graham disse o seguinte: “Se Deus não começar a matar mais cristãos, ele vai ter que pedir desculpas a Ananias e Safira”. Podemos brincar com o fato, mas as escrituras não dizem por que isso aconteceu. O Espírito Santo tratou com a situação daquela forma. Nós presumimos, por causa do que aprendemos na religião, que Deus tem uma personalidade esquizofrênica. Há escrituras que parecem revelar Deus como um juiz irado, matando pessoas o tempo inteiro. Como isso se compatibiliza com outras passagens que falam sobre Aba-Pai? A religião resolveu da seguinte forma: Deus é amoroso, mas ele fica irado às vezes. O tipo de relacionamento que vamos receber depende de nós. Se formos bonzinhos, teremos o Deus amoroso; se procedermos mal, seremos surpreendidos por um Deus pronto a açoitar-nos até que retornemos ao amor. É, no mínimo, contraditório. Deus não é amoroso às vezes; Deus é amor o tempo inteiro.

Não lemos que o que aconteceu em Atos 5 foi a ira de Deus; somente que Ananias e Safira venderam um pedaço de terra e iam ofertar todo o dinheiro para a igreja. Não foi o que fizeram, embora tenham levado as pessoas a acreditarem dessa forma. Eles deram até uma boa parte, mas guardaram o restante. Será que alguém, além de mim, já fez alguma coisa pior do que isso? Se é Deus matando as pessoas porque mentiram, todos nós já teríamos morrido. Não é isso.

Havia algo acontecendo na história desse novo grupo de cristãos: eles iam viver juntos como um povo. Havia uma grande generosidade entre eles: estavam vendendo as propriedades para ajudar as pessoas que estavam em necessidade. Era um quadro lindo da graça de Deus. Ananias e Safira parecem ter sido os primeiros a contaminarem algo que Deus queria muito preservar. Mais tarde, isso seria inevitável, mas, de alguma forma, Deus queria que aqueles cristãos primitivos soubessem que não precisavam fingir para fazer parte do corpo de Cristo.

Pedro chegou até a dizer ao casal que a propriedade era deles, nem precisavam vender; mas, se vendessem, não precisavam dar tudo. Eles não estavam quebrando regras. Não era Deus exigindo que dessem tudo o que tinham. Eles poderiam dispor do campo como quisessem.

A forma de Deus resolver a situação foi chamando-os para casa. A morte não era o castigo. Um dia todos nós vamos morrer e comprovar que a vida para sempre com Deus é muito melhor do que qualquer coisa que nós tivemos aqui. Nós pensamos que a morte do casal foi castigo. Eu penso diferente: era uma lição para que todos vissem que o fingimento é a coisa que mais causa dano ao corpo de Cristo. Se diante de um outro irmão precisamos fingir alguma coisa que não somos,  acabamos contribuindo para destruir a vida no corpo. E a religião tem tudo a ver com fingimento: vamos para a igreja e colocamos as melhores roupas; as pessoas perguntam como nós estamos, e dizemos que tudo está maravilhoso; ninguém na igreja nunca tem pecado ou dúvidas, cobiças, fofocas, lascívias. Sempre fazemos de conta que somos melhores do que realmente somos. Depois queremos saber por que não temos verdadeira comunhão.

Ananias e Safira foram as primeiras pessoas que fingiram no corpo de Cristo. E Deus falou assim: “Com licença, eu vou usá-los para ensinar uma lição aos demais”. Talvez a morte deles tenha sido o seu ministério, a sua contribuição. Uma vez que começamos a fazer de conta, não podemos ser amados. Se alguém que convive comigo finge ser alguma coisa que não é, eu não consigo amá-lo. Eu só estou amando aquele produto da sua imaginação.

É por isso que nós perdemos a vitalidade do corpo de Cristo. Não é porque saímos dos lares e estamos nos reunindo em prédios. É porque nós saímos da autenticidade de um relacionamento e adotamos o fingimento da religião. Lembrem-se de que Jesus falou para os discípulos fugirem da hipocrisia dos fariseus.

Foi uma grande lição que Deus quis ensinar. Eu não acho que foi castigo pelo pecado porque não era o que Jesus fez. Veja como ele tratou a mulher que foi pega em adultério. Era um pecado pior do que vender a propriedade, trazer a maior parte do dinheiro e depois mentir sobre isso. Parece para nós uma coisa pequena, mas Deus sabia que era preciso tratar com isso. E não significa que não amasse Ananias e Safira. Quando você for para casa, irá descobrir que não morreu no dia em que Deus não amava mais você. Nós vamos viver no amor do Pai, morrer no amor do Pai e ressuscitar no amor do Pai.

 

C.: Quais prejuízos as estruturas teriam se hoje começássemos a andar no amor verdadeiro de Deus? O que você pensa que aconteceria?

W.: Eu acho que nós precisamos descobrir isso. Com certeza, iria implodir um monte de coisas. Se estamos começando a conhecer o Pai pelo Filho, não fazem mais sentido todos aqueles sermões e rituais. Para que ir à igreja se o objetivo deixa de ser tentar consertar o que está quebrado? Não é isso o que estamos fazendo sempre?

Eu acredito que a nossa vida ia começar a se parecer bem mais com a dos irmãos da igreja de Atos: passaríamos a querer compartilhar a vida de Cristo com outros, ajudaríamos pessoas que precisam de ajuda e deixaríamos de ficar constrangidos de sermos socorridos pelos irmãos. Quase nem conseguimos descrever o que a igreja deles parecia. Sabemos que não tinham prédios e que se reuniam nas casas durante as refeições, que era bem mais divertido fazê-lo, não uma obrigação, e que achavam a vida de comunidade irresistível.

A religião é forte porque se vale da necessidade de aprovação das pessoas. Segundo Dallas Willard, autor de “A conspiração divina”, esse sistema administra nossa culpa e vergonha. Mas a comunidade do povo de Deus não está administrando nada disso, não procura explorar a vergonha e a culpa de ninguém. Está, antes, interessada em que as pessoas vivam de forma autêntica, real. E isso provavelmente vai estourar muitas de nossas estruturas. Talvez não todas.

Eu visito congregações que se reúnem em prédios, de maneira tradicional, mas que estão realmente querendo viver o amor e já dão sinais de que estão crescendo nisso. E à medida que alguns desses grupos começarem a viver o amor, passarão a questionar por que fazem tantas coisas e deixarão de ver sentido na maioria delas, embora continuem a viver como irmãos e irmãs.

Eu conheço um grupo em Dublin, na Irlanda, cujas pessoas, há quarenta anos, decidiram não mais viver como uma igreja tradicional, mas apenas como irmãos e irmãs. Desde então têm convivido nas casas, às vezes saem de férias juntos, celebram aniversários. Hoje muitos deles são pais e avós; seus filhos e netos cresceram nisso. Formam um grupo maravilhoso de cerca de 400 pessoas, uma comunidade de relacionamento. A reunião de toda a comunidade acontece à medida que Deus orienta, nunca mais do que uma vez a cada dois anos. No entanto, em grupos menores, estão sempre juntos nas casas uns dos outros, orando, encorajando-se, amando-se, ensinando, crescendo.

Se vivermos o amor, provavelmente explodirá tudo mesmo, mas qualquer pessoa que sobrevive a essa explosão, nunca se arrepende. Essa é a minha experiência: meus piores dias agora, vivendo dessa forma, são cem vezes melhores do que os meus melhores dias na religião.

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