Outros aspectos práticos da jornada no amor do Pai

Por:Wayne Jacobsen Data: 2/02/2010

CONFERENCISTA: Eu gostaria que você falasse sobre a igreja relacional funcionando no ambiente de uma instituição religiosa, no ambiente de uma igreja no lar e também de forma independente como igreja relacional na cidade.

WAYNE: O que eu amo a respeito do corpo de Cristo na terra é que ele toma centenas de expressões diferentes. Eu posso falar sobre a vida que compartilhamos entre irmãos e irmãs lá na minha cidade, sobre um grupo perto de Melbourne, na Austrália, ou sobre alguns grupos na África do Sul ou em Dublin, na Irlanda. Cada um é diferente. Viver de forma relacional significa simplesmente o seguinte: eu vivo como uma pessoa amada e amo as pessoas que Deus colocou ao meu lado.

Se nós quisermos ser a igreja, que modelo devemos usar? Há igrejas nos lares, igrejas em células, igrejas sensíveis às pessoas, centenas de modelos. Vou ser honesto: eu acho que nenhuma dessas coisas faz diferença para Deus. Ele se preocupa com que nos relacionemos com ele como Pai. Assim compartilharemos este amor com outros e aprenderemos a ouvir e a seguir Jesus juntos. Se nós estivermos fazendo isso, podemos estar numa igreja institucional, numa igreja nos lares ou junto com irmãos sem ter nenhuma formalidade ou sistema. A essência da igreja é que ela é uma família, não um prédio, um grupo, uma reunião ou uma metodologia.

Ser igreja é fazer parte de algo da mesma forma como eu faço parte da família Jacobsen. Onde eu estiver, há um Jacobsen. Quando estou no Brasil e toda a minha família nos EUA, eu não deixei de fazer parte da família Jacobsen. Eles são minha família. Nós nos reunimos e nos relacionamos o tempo todo. Estamos por perto para apoiar uns aos outros. Se Jesus nos pede para fazermos algo juntos, nós fazemos. Um dos livros que publiquei, “Relacionamentos autênticos”, escrevi junto com meu irmão. Deus nos pediu que fizéssemos alguma coisa juntos. E nós fizemos. Eu não escrevo todos os livros com ele nem ele comigo. Ele já escreveu outros três livros sozinho. Nós não nos reunimos toda semana, mas nos mantemos em contato. Lá em casa, meus irmãos e minhas irmãs, as pessoas com quem eu ando bem de perto, sabem o que acontece na minha vida, e eu sei o que se passa na vida deles. Se nós nos reunimos para jantar, jogar golfe ou se vamos a um concerto juntos, estamos sempre falando de Jesus, como ele está modelando a nossa vida, e o que nós estamos aprendendo. Às vezes talvez nós queiramos fazer um encontro mais intencional, uma vez por mês, uma vez por semana, e fazemos isso por um tempo. E passamos a dividir a vida juntos. Depois Deus pode nos guiar para andar com outras pessoas. Então nós deixamos isso bastante flexível.

Nós podemos nos reunir de qualquer forma que Deus queira. Podemos, por exemplo, nos ajuntar numa noite para louvor e cânticos. Ou para orar e discernir a vontade de Deus para alguém que se sente chamado para o campo missionário. A igreja é uma realidade que nós vivemos. Eu amo meu relacionamento com Jesus, mas também amo meu relacionamento com outros irmãos e irmãs. Eu amo a sabedoria que eles acrescentam à minha vida. Eu amo poder me importar com eles quando eles precisam da minha ajuda. E eles fazem a mesma coisa comigo.

Então a igreja pode se expressar de muitas maneiras diferentes. O que é mais importante para mim é que nós estamos encontrando o relacionamento com o Pai primeiro. Somente depois nós deixamos que a igreja se manifeste como produto desse relacionamento. A mentira que nós temos acreditado é a seguinte: se nós descobrirmos o jeito certo de fazer a igreja, de viver a igreja, nós vamos ter discípulos e vida, mas eu acho que isso está na ordem inversa. O primeiro livro que eu escrevi foi “A igreja nua”. Embora goste de muita coisa nele, tenho que confessar que foi edificado numa premissa errada. O que nós fizemos foi analisar o livro de Atos e mostrar como deveríamos nos comportar como igreja. Achávamos que copiando o que eles fizeram, teríamos a mesma vida. Nós realmente copiamos, conseguimos que as pessoas seguissem regras, mas não conseguimos a vida. Nós podíamos fingir ser comunidade, mas não éramos, em essência, uma comunidade, porque estávamos copiando um modelo.

O que estávamos perdendo era o seguinte: a igreja primitiva não agia como agia porque Jesus ensinou assim. Não era um modelo que eles copiavam. Em vez disso, a igreja primitiva ficou viva na realidade de Jesus e no amor do Pai. As pessoas que recebem vida em Jesus vão compartilhar vida juntos. É simplesmente assim que acontece. Não precisa mandar. Esta vida de Jesus, em amor, dá fruto em amar aos outros. Viver como pessoas amadas cria uma paixão pela verdade, por comunhão, por compartilhar. E conhecendo o Deus generoso, eu me torno generoso para com as pessoas. Então é a vida de Jesus que vem primeiro; a vida da igreja é o resultado disso.

Eu passei 20 anos pensando o contrário: se nós conseguíssemos acertar a igreja, teríamos a vida de Jesus. Mas assim que começamos a copiar um modelo, paramos de seguir o cabeça. E quando isso acontece, não importa o modelo utilizado: vai falhar, e nós vamos ficar desapontados.

Assim que eu peço que alguém seja para mim um substituto do relacionamento que eu não tenho com Deus, eu fiz desse alguém um ídolo. E os relacionamentos vão quebrar porque ninguém pode ser Deus para o outro. Jesus não nos pede que edifiquemos a igreja, mas que façamos discípulos e os ensinemos a viver como pessoas amadas. Só então a igreja vai acontecer. Edifique a igreja, e o amor não acontecerá.

A igreja se expressa de muitas maneiras: irmãos e irmãs vivendo juntos, fazendo tarefas juntos. Isso pode ser feito de milhões de maneiras diferentes, mas não é a primeira coisa, é o fruto de outra coisa. Nossa responsabilidade não é o fruto. Nossa responsabilidade é equipar as pessoas e assistir enquanto a igreja se manifesta.

 

C.: Você falou bastante sobre aspectos pessoais: fé e relacionamento com o Senhor. Porém nós temos uma noção de que na prática essa comunhão vertical reflete-se horizontalmente e esse reflexo horizontal é recíproco e acontece entre muitos irmãos. Qual é a sua prática hoje com vários irmãos, amigos, pessoas com quem convive e que têm a ver com a sua vida pessoal de fato e de verdade?

W.: Você não consegue amar o Pai e ficar sozinho. É impossível amar o Pai e não ficar loucamente apaixonado pela sua família. A nossa comunhão não é uma obrigação, é uma dádiva. Sara e eu temos interação com irmãos todos os dias, todas as semanas. As pessoas vêm jantar conosco, nós vamos almoçar juntos. Às vezes um grupo se reúne para discutir um assunto. E se tem alguma coisa acontecendo na vida de alguém que precisa ser confrontado, nós confrontamos dentro da nossa amizade. Às vezes os relacionamentos são quebrados, mas nunca por um voto meu. Se você é meu amigo, eu vou ficar com você, não importa o que aconteça. Se você quiser se afastar de mim, tudo bem, mas eu não vou me afastar de você só porque enxergamos uma mesma coisa de maneiras diferentes. Para nós agora é uma coisa bastante flexível. De duas e três, de cinco e seis pessoas, nos reunimos compartilhando a vida.

Eu escrevi um artigo há pouco tempo sobre amigos e amigos de amigos. Nós temos amigos com quem gostamos de estar juntos nesta jornada. Quando eu conheço uma pessoa nova, eu a chamo para jantar comigo e convido também alguns outros amigos para que os relacionamentos possam crescer. Nós não temos uma reunião fixa, nem mensal, nem semanal. Mas também não somos contra isso. Nós não estamos tentando evitar isso. A nossa comunhão já está bem rica da maneira que está. Então, no momento, se fôssemos determinar dias e horários, parece que iria pesar muito. Nós estamos sempre procurando ouvir Deus, e ele pode mudar isso a hora que ele quiser. Aí nós poderíamos ter uma coisa mais fixa sobre reunir por algum tempo. Nós não acharíamos interessante fazer isso para sempre. Vamos fazer isso enquanto Deus determinar e vamos ver como Deus vai dirigir depois disso. Mas Sara e eu sempre estamos orando e pedindo a Deus que nos mostre com quem ele quer que andemos. Estamos sempre procurando pessoas que estão precisando de um irmão ou de uma irmã para andar ao lado delas. Estamos enfatizando mais relacionamentos do que reuniões.

 

C.: Tenho uma pergunta sobre a vida da igreja relacional dentro da igreja institucional. Quando existem conflitos e diferenças de pensamento em relação a uma interpretação bíblica, como pode haver continuidade nos relacionamentos se os líderes da igreja institucional proíbem, a partir dessa diferença, a manifestação daqueles que têm pensamento discordante? Sinceramente, onde existe instituição, não acredito que a igreja relacional possa acontecer. Qual a sua opinião?

W.: Como um verdadeiro relacionamento pode continuar se eu tenho que fazer de conta que sou uma pessoa que, na realidade, não sou? Se não posso ser honesto sobre as coisas que estou descobrindo porque alguém não gosta, porque acha que é um erro, como eu posso crescer? Nós crescemos em tudo naquele que é o cabeça, de acordo com Efésios 4, falando a verdade em amor. Se pararmos de falar a verdade em amor, a vida da comunidade morre. E tantas instituições precisam de conformidade. Não é permitido às pessoas discordarem da liderança da igreja porque parece rebelião. Então, com medo da rebeldia, exige-se conformidade, e a pessoas têm que ser desonestas.

Posso viver um relacionamento num ambiente desses? Com as pessoas, sim. Os fariseus não gostavam muito do que Jesus falava, mas isso não o impedia de continuar falando. Como, então, viver um relacionamento num ambiente institucional? Se Deus me chama para viver perto de pessoas que estão vivendo institucionalmente, eu vou assistir às reuniões ao lado delas, vou convidá-las para almoçar e jantar. Assim vou começar a conhecer pessoas. Não vou desencorajá-las a acreditar naquilo em que estão crendo nem tentar convencê-las de que estão erradas, e eu, certo, pois isso é obra do Espírito Santo. Eu só vou amá-las e compartilhar o que estou conhecendo sobre o Pai para ver se estão com fome da mesma coisa. Se estiverem,  nós vamos conversar sobre isso. Se preferem falar de coisas de denominação, eu vou respeitar, pois não quero tornar sua vida difícil. Se querem me perguntar coisas com que se preocupam, vou falar sobre isso. Mas eu não venho a um grupo de pessoas para ser um agente de mudanças. Eu não quero mudar ninguém, apenas amar todas as pessoas nos lugares onde elas se encontram em Cristo.

Deus não tem inimigos, a não ser o maligno, portanto não devemos lutar contra carne e sangue. Quando temos o amor de Deus no coração, sabemos que ele ama a todos e aprendemos a viver perto de todo tipo de pessoas. Não é diferente se se trata de uma pessoa de uma instituição ou de um ateu num avião, do lado de quem às vezes nos sentamos. É só uma conversa sobre quem é Deus e se a pessoa quer conhecê-lo. E se ela quiser, eu tenho muita alegria em ajudar.

 

C.: De acordo com a Bíblia, marcar encontros e reuniões para estar em comunhão, compartilhar oração e praticar a ceia seria errado? Esse tipo de situação seria como marcar um horário para Deus realizar as coisas?

W.: Pode ser verdade. Eu acho que nós temos muito mais reuniões do que Deus deseja. Ele disse ao povo de Israel, por meio de Isaías, que havia cansado de suas festas e de todas as suas reuniões. Eu não vejo nada de errado com irmãos e irmãs organizando uma reunião no final de semana para orar, cantar e falar de Jesus, para ter ensinamento sobre graça e justiça. Acho tudo isso muito bom, mas nós precisamos forçar Jesus a aparecer nessas coisas.

Onde dois ou três se reúnem no nome dele, ele vai estar lá. Eu gostaria que ele tivesse dito “quando só dois ou três se reúnem”, mas ele não disse. É o mínimo, mas não o máximo. Comunhão é melhor em dois ou três. As melhores conversas acontecem quando dois ou três estão comendo juntos.

Não é errado estarmos numa conferência como esta, mas o melhor é quando podemos sentar com mais um ou mais dois e fazer perguntas e processar tudo de que temos necessidade. Ter aulas particulares de golfe com Tiger Woods, por exemplo, é muito melhor do que me reunir com mais dez mil pessoas num estádio para ouvi-lo.

C.: Gostaria que você comentasse o texto de Hebreus 10.25: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns…”

W.: Alguém pode passar um longo tempo frequentando a congregação e nunca realmente reunir a sua vida com a de outro cristão. Existe muita gente solitária em nossas igrejas. De fato, muitos reconhecem: a igreja acontece mais no estacionamento do que nas reuniões. O motivo é claro: o envolvimento mútuo, que a igreja primitiva tanto prezava, não se garante com a frequência às reuniões porque, geralmente, estes momentos não têm sido os melhores para os irmãos se conhecerem, travarem um diálogo honesto, encorajarem-se uns aos outros na jornada. Hebreus 10 não é um texto para congregações tradicionais, para exigir que todos assistam às reuniões, mas é um bom alerta para nós de que essa não é uma jornada independente: fomos convidados ao Pai, portanto a uma família com a qual temos que nos envolver, não importa a maneira como Deus nos dirige para compartilhar vida e comunhão.

Jesus serviu os discípulos lavando-lhes os pés. Nós não estamos servindo quando ficamos juntos sentados num prédio, olhando a nuca uns dos outros, mas nos envolvendo com pessoas nos detalhes mais simples e concretos de suas vidas. Na nossa cultura, como podemos lavar os pés dos outros? Ajudando-os a mudar de casa, a encontrar emprego, a ter o sustento. Serviço é algo muito prático que nos ajuda a atravessar a vida juntos.

 

C.: O que você acha dos dízimos e ofertas nessa nova abordagem?

W.: Basicamente, nosso problema é o seguinte: a religião cristã, dentro da qual muitos nos encontramos, não passa de uma reformatação das realidades da Velha Aliança rebatizadas com a  terminologia da Nova. Perdemos quase tudo o que Jesus nos trouxe na cruz: ainda temos sacrifícios, a lei, ofertas e sacerdotes. Pegamos todas as coisas das quais Cristo nos libertou e as adaptamos para uma religião chamada cristianismo, com princípios divinos para seguir ao invés de um Deus para amar.

Eu não estou convencido de que dízimos e ofertas conseguiram passar da Velha Aliança para cá. Os crentes do Novo Testamento não foram encorajados a dar dízimos. Isso foi o que Deus pediu à nação judaica para a manutenção dos sacerdotes e das festas. Mas nós pegamos tudo isso e carregamos para o Novo Testamento.

Dízimo é um jeito fácil de arrecadar dinheiro para suprir todos os prédios e as equipes das nossas instituições. Nós precisamos de um número significativo de pessoas dando 10% de sua renda para sustentar toda essa estrutura. Se entendemos que Deus nos chamou para estar em determinada estrutura e estamos nos beneficiando dela, espera-se que estejamos dando os 10% de nossa renda. Mas isso não é uma dádiva a Deus; é uma cobrança de sócio de um clube. Pouco aproveita à extensão do reino de Deus no mundo.

Hebreus diz que tudo na Velha Aliança era uma figura de uma realidade maior que ainda viria. Isso é verdade sobre sacrifícios, e creio que também sobre o sacerdócio, porque agora todos somos sacerdotes. Jesus proibiu que chamássemos alguém de mestre. Todos temos um Pai, somos, portanto, irmãos e irmãs. Paulo nunca se denominava apóstolo. A igreja primitiva não via ministérios como identidade, mas como função. Paulo falava da liderança como uma função na família, não como um novo sacerdócio. Todos somos sacerdotes do Senhor Deus.

A realidade de dar no Novo Testamento não é baseada em dízimos, mas na generosidade de Deus. É o que aconselha Paulo em 2 Coríntios 7, 8 e 9: as contribuições aos santos em Jerusalém deviam ser feitas com coração generoso, não por obrigação; cada qual devia participar de acordo com o que tivesse proposto no seu coração.

Dízimo é uma figura de dar. A realidade é o seguinte: quando sabemos que temos um Pai generoso, que derrama a vida dele em nossa vida, somos tocados pelas necessidades de outras pessoas e agimos de forma generosa com elas. Há necessidades no mundo todo. Tudo, no entanto, deve ser feito com alegria, pois Deus ama quem dá com alegria. Ele não gosta de gente pagando contas. Se vivermos na generosidade de Deus, no fim de um ano, especialmente se as circunstâncias forem boas, teremos dado bem mais do que 10%. Esse percentual vai parecer muito pequeno porque a generosidade de Deus é imensurável.

Infelizmente, a maioria de nós não conhece a Deus como um Pai generoso. O deus da religião não é generoso. É preciso mendigar e pedir tudo o que você conseguir dele. Parece que ele é meio avarento.

Não é assim o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo. Quando o conhecemos, experimentamos sua provisão de maneiras inimagináveis. Como consequência, dar a outros torna-se uma alegria. E a maneira como nós podemos conhecer o Deus generoso é saindo de nossa agenda e assumindo a dele. Possivelmente já notamos que Deus não é muito generoso com nossa agenda. Ele não quer sustentar o nosso egoísmo dando-nos tudo aquilo que queremos. Ao contrário, ele quer que vivamos nele para que nos dê tudo o que ele deseja dar. E convenhamos: isso é bem melhor do que o que achamos que queremos para nós.

Eu tenho 56 anos de idade. Atualmente, não estou fazendo nada do que sonhei quando era um jovem no ministério e pedia a Deus influência e oportunidade. Não estou vivendo nada do modo como eu via, mas não troco o que eu estou vivendo hoje em Jesus por nada do que eu costumava sonhar. Deus desapontou minhas expectativas porque tinha para mim coisas maiores do que eu jamais poderia saber. As coisas que eu queria estavam na falsidade da religião, não na realidade de uma vida transformada. Essa vida é bem melhor. Eu queria falar com multidões de milhares de pessoas, agora eu prefiro falar com 20 pessoas ou menos. Eu sei que acontece mais numa conversa do que numa palestra. Jesus ensinou multidões e não teve tanto sucesso, mas compartilhou o evangelho com grupos menores de pessoas e assim ele se difundiu. Paulo está totalmente correto quando, em Efésios 3, diz que o que Deus tem em mente para nós vai extremamente além do que podemos pensar e imaginar.

 

C.: Como falar de Jesus sem ser religioso e sem evangelizar?

W.: Se você é religioso, é assim que agirá nas mais diferentes situações. E se você não é religioso, sua forma de viver trará essa marca. O que nós somos vai ser comunicado às pessoas. À medida que vai perdendo suas obrigações e treinamentos religiosos, você vai se tornando mais relevante no mundo, e as pessoas passam a querer conversar com você sobre o Deus que você conhece. Quando tudo já vem embrulhado no pacote da religião, o mundo não tem interesse. As pessoas podem até ser educadas com você, mas não vão se envolver. Como não ser religioso com o mundo? Abandonando sua religião à medida que anda com Jesus. Assim, você vai aprender a amar as pessoas. Quando ama as pessoas, você não quer manipulá-las. E também não quer manipular a conversa. Como resultado, as pessoas passam a se importar com o que você tem para lhes falar.

 

C.: Quem se frustrou com a igreja e com toda a estrutura, quando lê o seu livro, anima-se com uma proposta de ser amado por Jesus, de viver um relacionamento sem ser preso à estrutura. Mas existem ainda pessoas que amam a estrutura e não conseguem pensar numa vida de ser igreja sem estar na estrutura. Eu estive conversando com uma amiga e perguntei se ela já tinha lido o livro. Ela olhou séria para mim e falou: “Não li porque eu ainda vou à igreja”. Existe um jeito de conversar com essas pessoas sem que haja um conflito? Há uma maneira de viver a igreja e não viver na igreja?

W.: A resposta fácil é não. A melhor coisa que eu vejo sobre viver como uma pessoa amada e amando é que você não precisa convencer os outros a esse respeito. Eu sei que nós queremos fazer isso. Nós queremos que nossos amigos desfrutem daquilo que nós estamos desfrutando. O que eu amo nesta jornada é que ela é um convite para as pessoas que têm fome. Aqui está o maior erro que eu cometi quando era pastor: eu queria alimentar os famintos, mas acabava gastando 90% do meu esforço e do tempo do sermão no domingo tentando convencer e motivar as pessoas acomodadas.

Em João 16, Jesus menciona que a obra de convencimento é exclusiva do Espírito Santo. Nos últimos 15 anos, eu não tenho desperdiçado um segundo do meu tempo tentando convencer alguém. Eu vivo a vida que Deus me chamou para viver.

Não somos suficientemente brilhantes, não temos capacidade de convencer as pessoas que não veem o que nós vemos. Na verdade, quando tentamos fazer isso, às vezes colocamos as pessoas ainda mais na defensiva, deixando-as mais hostis àquilo que nós estamos querendo mostrar. Então eu parei com isso há muito tempo. Eu apenas aconselho as pessoas a verificarem se sua participação numa determinada comunidade de cristãos vem ajudando-as a conhecer mais a Deus. Eu tenho notado o seguinte: quando eu paro de tentar convencer as pessoas, elas ficam muito curiosas, e então surge uma oportunidade maravilhosa de conversar com elas.

Minha preocupação hoje é equipar os famintos. Eu posso amar os acomodados e os meus inimigos, eu posso ser bondoso, gracioso com eles, mas não vou tentar convencê-los mais. Creio que era isso o que Jesus fazia. As parábolas são um exemplo disso. Ele disse que usava esse recurso para que os fariseus não entendessem o que ele estava dizendo. Eu ensinei durante muito tempo que Jesus passava as verdades em códigos para os verdadeiros discípulos porque não queria que os fariseus soubessem. Naquela época, eu achava que era um dos verdadeiros discípulos, logo mais amado do que outros. Mas o que Jesus estava dizendo era algo bem diferente: “Eu não consigo colocar a verdade diante dos fariseus agora porque eles não estão prontos para corresponder a ela. A verdade vai fazer com que fiquem na defensiva, e eles vão afundar mais ainda no buraco em que já estão”. Eu tenho visto isso na minha própria vida. Quanto mais eu tento convencer alguém, mais esse alguém fica na defensiva e passa a viver numa escravidão ainda maior, tentando provar para mim que eu estou errado.

Um dia antes de viajar para cá, eu me encontrei com um amigo bem íntimo que está tomando uma decisão muito idiota. Ele queria falar sobre isso comigo para obter a minha aprovação, embora já achasse que eu não iria aprovar. Eu confirmei sua previsão e dei-lhe uma razão para minha posição. Ele começou a argumentar. Eu simplesmente disse que não estava tentando pará-lo, apenas dando minha opinião. Eu não apoiaria sua decisão, pois estava claro que levaria a problemas, mas me manteria a seu lado para o que desse e viesse, continuando a amá-lo. Era tão engraçado: quanto mais eu tentava não convencê-lo, tanto mais ele queria que eu o convencesse, mas eu não ia fazer isso. Eu falei: “Irmão, está entre você e Deus. Ele é o seu mestre. Você vai ficar em pé ou vai cair diante dele. Se este for um erro, Deus é maior do que os seus erros”. Eu já passei várias vezes por isso e pude ver, mais adiante, o quanto tinha sido idiota, mas também o quanto Deus me amava assim mesmo e sabia usar a minha confusão para a glória dele.

Eu acho que nada que nós possamos dizer vai convencer alguém. Deixe as pessoas começarem a conhecer a sua verdadeira vida, seu coração. E quando começarem a discutir, afaste-se um pouco. Quando estiverem com fome, então você poderá lhes mostrar.

Estive com um homem em Mianmar há uns dois anos, numa ocasião em que estava ensinando um grupo de pessoas. Eu disse algumas coisas sobre a cruz que ele nunca tinha ouvido antes, e essas coisas o assustaram. Depois de dois dias, ele falou com um dirigente que achava que eu era o anticristo, e eu fui comunicado disso. Às vezes isso acontece comigo. Eu estava falando de algumas coisas que sabia que iam ser difíceis de eles entenderem. Esse homem nunca tinha lido nada do que eu escrevi, ele não estava ali com sede dessas coisas que Deus tem feito na minha vida. Era tudo novo, parecia-lhe que todas as estruturas religiosas em que confiava estavam desmontando, e isso o assustou. Então começou a me atacar, mas eu o encorajei a permanecer conosco mais um dia. Talvez conseguíssemos chegar a um outro ponto que pudesse testificar a realidade em seu coração. Mais dois dias depois, ele se aproximou e caiu de joelhos diante de mim, agarrado aos meus tornozelos. Enquanto chorava, dizia: “Você é um apóstolo de Deus, você precisa vir para Mianmar”. Eu recusei aquela reverência, dizendo que não era um apóstolo, mas apenas um irmão que está numa viagem.

Às vezes, as pessoas que lutam mais, que resistem mais são as que estão mais próximas, que estão quase enxergando. Elas simplesmente ainda não se entregaram, não se renderam. Devemos amá-las da mesma forma. A parte de amar é o que Deus pediu a nós. A de convencer pertence ao Espírito Santo.

 

C.: Como é que, nesse estilo de vida, nessa jornada, se aprende sobre o Senhor Jesus se não é através de pregação da palavra, de estudos bíblicos, que é aquilo com o que nós estamos acostumados? O poder de demonstrar o amor e ser amado por esse ser que nos ama incondicionalmente é a chave para atrair pessoas?

W.: Existem milhões de maneiras para aprender. Na essência de tudo, nós precisamos estar aprendendo dele. Várias escrituras no Novo Testamento falam que nós não vamos precisar mais de mestres. Não será necessário sair falando um com o outro: “… conhece o Senhor, porque todos me conhecerão, do menor ao maior.” Isso está em Hebreus 8. A primeira carta de João diz que cada um tem a unção do Senhor, e ela nos ensina todas as coisas. É por isso que você pode ouvir alguma coisa, e algo dentro de você produzir ou não testificação. A religião nos ensina a ignorar isso: “Confie em nós, pois somos estudiosos da Bíblia. Nós podemos falar qual é a verdade”.

Jesus disse que as ovelhas conhecem a sua voz. Ao estranho elas não vão seguir. Basicamente nossa instrução tem que vir do nosso relacionamento com o Pai, mas isso não significa que não precisamos de livros, de mestres, lugares aonde nós vamos para aprender melhor as coisas que Deus quer nos mostrar. É por isso que eu escrevo, é por isso que eu viajo. No entanto há uma diferença entre ir a um professor para complementar o que Deus está nos mostrando e ir para um professor como um substituto. No segundo caso, a nossa confiança passa a ser em outra pessoa ou em algum tipo de teologia.

Eu ouço muito hoje sobre a mensagem da graça. Muitos me perguntam: “Você ensina a mensagem da graça?”. Graça para mim não é uma mensagem, mas uma realidade dentro da natureza de Deus. Se começo a ser um defensor da mensagem da graça, eu já não estou mais representando Jesus. Eu quero que as pessoas tenham vida nele. Eu falo sobre a graça, sobre crescer no relacionamento, mas não quero ser um substituto para a jornada de outra pessoa. Eu penso que qualquer bom professor vai ajudar a conhecer o Pai, mas não tentar tomar o lugar dele na vida de ninguém. Se nós entendermos isso, poderemos ler, conversar com as pessoas, ouvir mensagens em áudio. Eu faço tudo isso. Eu leio centenas de livros por ano. Eu interajo com pessoas que veem as coisas de uma maneira diferente. Eu ouço transmissão de mensagens, ensinamentos. Às vezes eu me encorajo com a jornada de uma outra pessoa. Mas bem no coração de tudo isso tem que estar o Espírito Santo dizendo: “Isso é verdade”, “Isso não é verdade”.

Na maior parte da história do cristianismo, a igreja tem procurado ser esse substituto. Nós acabamos decidindo o que está certo e o que está errado. Eu conheço alguns pastores que não permitem que ninguém na sua congregação leia livros que não estejam na lista dos aprovados. Eu sei porque eu recebo cartas de pessoas. Quando me pedem a indicação de um livro, eu não vou ao pastor daquelas pessoas pedir permissão para mandar um livro a elas.

Depois de vender por seis meses “A cabana”, um grupo de livrarias nos Estados Unidos, preocupado com a recepção de seus leitores, reuniu os seus teólogos para debater sobre as possíveis heresias contidas no livro. Tendo concluído que os erros não eram muitos, houve uma discussão para saber se o livro continuaria sendo vendido nas livrarias do grupo. A solução a que chegaram foi mantê-lo à exposição para venda, mas com uma ressalva que prevenisse o leitor de que o livro era muito controvertido e deveria ser lido com bastante discernimento. Nós demos risada. Como se os outros livros não precisassem ser lidos com discernimento.

 

C.: Há anos temos ouvido – e eu creio que esse foi o meio como muitos de nós fomos alcançados – sobre uma fórmula, às vezes mecânica, baseada naquilo que Bill Bright criou, as quatro leis espirituais, que deram origem até mesmo a algumas expressões de como aceitar Jesus. Na prática, quando se trata de falar a um incrédulo, como é que você compara essa fórmula mecânica com a abordagem que esta conferência nos apresenta?

W.: Durante os últimos cem anos, nós temos visto salvação, sobretudo por meio das muitas abordagens evangelísticas, como Deus nos livrando do inferno e resolvendo o nosso destino eterno. O anúncio invariavelmente adverte e propõe: “Você merece ir para o inferno, mas se aceitar a Jesus, poderá ir para o céu”. Embora não negasse a realidade do inferno, não era assim que Jesus fazia o convite para o reino. Seu convite para a salvação não tinha como objetivo resolver o destino de quem quer que fosse, mas oferecer um relacionamento com o Pai. Se o nosso único propósito de salvação é livrar as pessoas do inferno, então a visão da cruz como um castigo é suficiente. Mas se o nosso propósito é convidar as pessoas a um relacionamento, a visão de castigo não basta.

Podemos ilustrar isso da seguinte maneira: eu convido alguém para ser meu amigo, mas antes que essa pessoa se decida, derramo gasolina em sua cabeça e, com um palito de fósforo pronto a ser riscado, refaço o convite: “Você quer ser meu amigo?”. Infelizmente, as pessoas se relacionam com Deus dessa forma: aceitam ser amigas dele não porque se afeiçoaram a ele, mas porque estão com medo de ir parar no inferno. E quando um relacionamento é gerado pelo medo, sempre fica no mínimo.

Deus é visto como um sequestrador que nos enche de ameaças. Nos EUA, temos a história de uma garota que, aos 14 anos, foi sequestrada e estuprada. Ela acabou se casando com o homem que a violentou e teve três filhos com ele. Quando a polícia a encontrou, somente dezoito anos depois, ela não mais queria voltar para casa. Tinha aprendido a viver dentro daquele relacionamento.

Se o convite é para relacionamento, então precisamos mais do que castigo. A cruz precisa ser a história que não só nos une em afeição a Jesus, que tomou nosso lugar, mas que também cria um relacionamento de afeto com o Pai, que nos ama.

O convite de Jesus é para vendermos tudo e adquirirmos a pérola de maior valor, o conhecimento do Pai. “Arrepender-se e crer” são termos que usamos muito, embora o façamos de uma forma bastante religiosa. Quando pensamos em arrependimento, muitos de nós o associamos à desistência dos pecados, a mudar nossa mente para viver de uma maneira diferente. E crer significa aceitar que Jesus é o Cristo. Trata-se de uma concordância teológica com os credos, a doutrina da igreja, o fato de Jesus ter nascido de uma virgem, sua vida sem pecado, a morte na cruz, a ressurreição ao terceiro dia, o estar sentado à direita do Pai e a expectativa de seu retorno à terra em poder e glória. Tudo isso é verdadeiro, mas não o que Jesus queria dar a entender.

Quando falava sobre arrepender-se e crer, a linguagem que Jesus usava não era semelhante à linguagem religiosa do seu tempo. Os fariseus não falavam em arrependimento e fé. João Batista e Jesus, ao fazerem-no, empregavam um termo secular. Josefo, o historiador judeu, conta a história de dois generais romanos que chegaram a um campo de batalha para ajudar uma terceira legião romana que estava sendo derrotada pelos insurgentes. Segue-se uma acalorada discussão entre os generais em que cada qual tenta fazer prevalecer a sua estratégia militar de ajuda. Depois de muito argumentar, um deles diz ao outro: “Arrependa-se e creia em mim”. Estaria ele exortando o outro a ter remorso pelos seus pecados e a abraçar a verdade das escrituras? Não. Era algo bem diferente: “Abandone o seu plano e abrace o meu” era o sentido.

Então quando Jesus disse “Arrependa-se e creia”, ele não estava tratando especificamente do problema do pecado, mas de abandonarmos toda a agenda que nos coloca como centro da nossa vida. Significa viver não mais em função daquilo que eu quero ou daquilo que eu acho que preciso. Significa abandonar a minha necessidade de agradar a mim mesmo e passar a acreditar na agenda de Deus para mim.

Quando falo com pessoas que não creem, eu não digo “O reino de Deus está próximo” porque elas não vão entender. O reino de Deus era um assunto do povo judeu daquela época. O ateu, nas ruas da América, não entende isso. Então eu procuro expressá-lo numa linguagem que possa ter significado para ele. Muitas vezes eu falo alguma coisa mais ou menos assim: “Você tem um Pai que o ama mais do que qualquer outra pessoa nesse planeta já o amou ou pode amá-lo”. Para mim, esse é o cerne do evangelho. Foi assim que Jesus falou com a mulher no poço: “Se você beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede”. Ele não está falando com ela “O reino de Deus está próximo” porque ela é samaritana. Não é a linguagem dela. Ela está indo buscar água fora da cidade, no calor do dia, por causa da vergonha da sua vida: ela já se divorciou cinco vezes. Naquele tempo, a mulher não tinha o direito ao divórcio. Isso significa que não foi ela que abandonou cinco casamentos, mas que cinco homens a tinham rejeitado. E o homem com quem ela morava naquele momento não era seu marido. Jesus não confrontou o seu pecado. Ela já sabia suficientemente qual era ele e tinha muita vergonha disso. Jesus viu nela não alguém que não podia fazer um compromisso de casamento, mas uma mulher sedenta por amor, que até então andara bebendo de todas as fontes erradas. Então para ela Jesus disse: “Eu tenho água que você não conhece”.

O problema da metodologia mecânica para compartilhar o amor de Deus é que geralmente a outra pessoa se sente manipulada. Sentamos num avião e usamos a seguinte abordagem para a pessoa do lado: “Se esse avião cair, você vai para o céu ou para o inferno?”. Depois ficamos sem entender por que a pessoa não quer conversar conosco. Quando eu me sento num avião, procuro me interessar pela vida da pessoa a meu lado, mas nunca forço uma conversa. Se o assunto chegar a Jesus é porque partiu da outra pessoa. Começa com uma pergunta que me fazem. A única maneira para eu levantar o assunto é se Deus me der uma palavra de conhecimento, alguma percepção sobre aquela pessoa. Então pode ser que eu faça uma pergunta sobre ela para abrir a porta à conversa.

Eu apresento as pessoas a Jesus da mesma maneira que eu apresentaria alguém a Sara, minha esposa. Deus fará o restante. Ele é muito bom nisso, já está nesse negócio há muito tempo. Ele sabe como se revelar às pessoas.

Watchman Nee costumava orientar da seguinte forma os incrédulos que, depois de ouvi-lo, vinham a ele declarando que ainda não tinham sido convencidos da existência de Deus: “Experimente, nessa noite, ao chegar em casa, dizer a Deus que não acredita nele”. As pessoas não viam sentido em fazer isso, mas Watchman Nee insistia: “Ora, se você não acredita mesmo, não tem importância dizer, não é verdade?” Alguns voltavam na noite seguinte, completamente transformados. Contavam que haviam feito como Nee aconselhara: tinham dito a Deus que não acreditavam nele. Para sua consternação, Deus devolvia: “E por que não?”

Compartilhe

Tópicos Relacionados
  • Não há tópicos relacionados.

Comentários

Deixe um comentário




Copyright 2010 - 2012 — Todo os Direitos Reservados. GrupoNews