Eis o que tem sido ensinado sobre a cruz por toda a história do cristianismo: uma vez que os nossos pecados ofenderam sua santidade, Deus precisa necessariamente castigar alguém. Mas ele tem um grande plano: punir o seu filho em nosso lugar. Se esta é a única chance que temos para sermos amigos de Deus, o que esta solução nos diz sobre ele?
Imagine que dias depois de eu ter feito um amigo, essa pessoa me causasse algum prejuízo material, tal como danificar meu lap top e, não satisfeita, passasse a me insultar e espalhar mentiras sobre mim. Imagine também que, arrependida, esta pessoa me procurasse para pedir que a desculpasse. Tendo já bolado um plano, começo, então, a lhe dizer: “Eu gostaria muito de perdoar-lhe, mas tenho que satisfazer a minha justiça primeiro. Acumulei muita raiva por causa do seu pecado, mas não se preocupe: ao invés de descontar a minha raiva em você, irei até a minha casa, tomarei meu filho de 29 anos e, de posse de uma grande vara, eu o açoitarei até à morte por causa do seu pecado. Estou decidido: vou matar o meu filho em seu lugar. Depois, eu irei à sua procura, e nós poderemos ser bons amigos”. Quem iria querer ser meu amigo? Eu acho que nenhuma pessoa honesta concordaria em ser amiga de alguém assim, pois pensaria que existe alguma coisa seriamente errada comigo.
Recebi recentemente um vídeo elaborado por um ateu cujas intenções de zombar dos cristãos eram claras. Trata-se de um cartoon de Jesus sentado no céu ao lado dos anjos. “Eu tenho um novo e grande plano”, Jesus anuncia. “Quantas pessoas vão ter que morrer dessa vez?”, os anjos ironizam. Mas Jesus responde que ninguém terá que morrer, pois ele mesmo está prestes a ir para a terra e salvar os homens. “Eu vou oferecer um sacrifício para me aplacar, e a melhor coisa sobre este sacrifício é que vou sacrificar a mim mesmo para aplacar a minha ira”. Sem entender, um dos anjos diz: “Isso não faz sentido”.
Como Deus mata a si mesmo para aplacar a própria ira? Ora, foi o que aprendemos sobre a cruz. O que isso fala sobre o Deus que nós amamos? Se a única maneira de Deus nos salvar é matando seu filho, talvez até aceitemos, afinal não queremos ir para o inferno, mas dificilmente deixaremos de ficar desconfiados. Nossa adesão acaba se dando pelo medo; não há afeição envolvida, pois Deus é muito amedrontador. Ah, sim, ele também é santo, mas está nervoso, e quando isso acontece, ele mata tudo o que vê pela frente. Eu não quero que ele me mate, então vou aceitar a salvação. Mas um Deus assim não é uma pessoa que queremos conhecer.
Com a idade de 42, depois de passar 20 anos na religião, estava na Austrália, onde deveria falar num acampamento. Dois outros irmãos ministraram nos 10 primeiros dias. Quando me pegaram no aeroporto e estávamos indo para o acampamento, quis saber sobre o que esses irmãos estiveram falando no início do retiro. O organizador do evento estava maravilhado: o assunto tinha sido a cruz. Com a minha boca, eu disse: “Oh, a cruz, que maravilha!” Mas na minha mente, eu refletia: “Como isso pode ser emocionante?” Isso é para mostrar o quanto eu era arrogante.
Cheguei ao acampamento a tempo de acompanhar um resumo do que aqueles irmãos estiveram compartilhando sobre a cruz naqueles 10 dias. Virei-me para minha esposa e disse-lhe: “Nós nunca ouvimos isso antes, nunca vimos a cruz dessa forma”. Ao primeiro contato, algo em meu coração disse: “Isso é verdade”. Mas minha mente relutava: “Não há como ser verdade”.
Como foi possível crescer numa igreja e ser treinado numa faculdade que crê na Bíblia, pastorear por 20 anos e nunca ouvir sobre o que aconteceu entre o Pai e o Filho na cruz? Passei a tarde com um dos preletores e pedi que compartilhasse comigo tudo o que sabia sobre o assunto. Fiz muitas anotações e voltei para casa dizendo: “Deus, isso é verdade. Eu quero conhecer”. Meu coração já sabia, mas minha mente não. E nos próximos seis meses, li tudo o que as escrituras descreviam sobre a encarnação, a crucificação e a ressurreição. E pedia constantemente a Deus que me conduzisse à verdade.
Se a religião tem mentido para nós sobre muitas coisas, por que não mentiria também sobre a cruz? Pode ter distorcido essa mensagem, como fez com muitas outras, a fim de poder nos controlar com o temor de Deus, em vez de nos liberar para viver no amor dele. Precisamos reexaminar as escrituras e verificar se a cruz é sobre o Pai castigando o Filho em nosso lugar ou sobre seu desejo de curar algo em nós que nos separava dele.
Existem duas maneiras de ver a cruz: uma delas é conhecida como a visão de aplacar Deus: Jesus teve que morrer para satisfazer a ira de Deus. Esta é a teoria da propiciação, que coloca Jesus morrendo para Deus. Mas Jesus não morreu para Deus. Em nenhum lugar da Bíblia, temos que Jesus morreu para o Pai. Por quem morreu então? Jesus morreu por nós. Ele não morreu para satisfazer alguma coisa em Deus, mas para satisfazer alguma coisa em nós.
A religião nos ensinou que Deus não pode olhar para o pecado, portanto virou as costas para ele, e que Jesus teve que morrer para que Deus pudesse nos olhar através do filho dele e nos amar. Isso vai contra tantas escrituras. “Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho ao mundo…” é um exemplo. Jesus não morreu para que Deus nos amasse. Deus já nos amava. Sempre nos amou. Sempre nos amará. Essa é uma constante no universo: esse Pai tem grande afeição por nós.
Quando Adão e Eva caíram no jardim, não foi Deus que se afastou deles. Eles é que fugiram de Deus porque tinham feito o que Deus proibira. A primeira evidência do pecado na vida de Adão e Eva foi o fato de eles ficarem envergonhados da própria nudez, a ponto de terem que se cobrir com folhas de figueira. Estar nus no jardim não era pecado antes nem depois da queda. O fato é que não se sentiam mais seguros, por isso precisavam se esconder.
Ao entardecer, quando vem para andar com o casal no jardim, Deus já sabe do ocorrido. Adão e Eva escondem-se nos arbustos. Não podem encarar Deus porque a vergonha deles faz com que não se sintam aceitos. Deus não os tinha rejeitado. Eles é que tinham rejeitado a Deus. Eles não mais se sentiam seguros na presença de Deus. É isso o que vemos durante todo o Velho Testamento: quando Deus aparece, as pessoas escondem-se de medo. Deus se aproxima no Monte Sinai, e as pessoas ficam apavoradas e pedem a Moisés que as represente diante dele. Isaías tem uma visão do trono de Deus e, a seguir, cai com o rosto em terra, sentindo-se indigno de estar na presença de Deus.
Será que era isto que Deus queria: que os filhos de Israel tivessem medo dele? Que Isaías ficasse aterrorizado na presença dele? Eu acho que não, porque Jesus vem – e ele é Deus em carne; ele está no Pai, e o Pai está nele; quem vê Jesus vê o Pai –, e as pessoas não correm dele dessa forma. Desde a época do jardim, quando Deus chegava perto de alguém, as pessoas se afastavam. Não queriam conhecê-lo, pois ele as assustava. Agora ele chega num corpo humano, e senta com as pessoas, e come com elas. É a primeira vez, desde o Éden, que Deus pode estar com humanos sem que eles estejam com medo dele. Dá para imaginar o que Deus sentiu nessa hora? “Eu posso comer com essas pessoas novamente, e elas não têm medo de mim”.
O terror em nossos corações causado pelo Deus santo não foi Deus quem nos deu. Foi o que o pecado nos deu. O nosso senso de indignidade fez Deus se tornar uma pessoa de quem precisássemos fugir, e não alguém para quem correríamos.
O senso de aplacar a ira da divindade é tão antigo quanto a humanidade, remonta às civilizações pagãs, que criavam seus deuses falsos e sacrificavam a eles com intuito de garantir a fertilidade da colheita e serem livres de pragas e intempéries do clima. Tempos de instabilidade podiam significar que os deuses estivessem nervosos. Quando o Deus verdadeiro começa a se tornar conhecido na terra, o homem já está condicionado a pensar que ele precisa ser aplacado também, como todos os deuses falsos.
Quando Abraão saiu e foi para a Palestina, provavelmente viu crianças sendo oferecidas em rituais do paganismo. Um dia, o Deus vivo que ele queria conhecer pediu-lhe um sacrifício, e Abraão concedeu. Por que não? Todos os outros deuses que ele conhecia exigiam sacrifícios de crianças para serem aplacados. Assim, Abraão toma o seu único filho e leva-o para o Monte Moriá para sacrificá-lo ao Deus que lhe tinha pedido. No caminho em direção ao monte, Isaque desconfia do sacrifício, pois lhes faltava o animal do oferecimento. Abraão simplesmente diz que Deus providenciaria o sacrifício. Traduzido literalmente do hebraico, o que Abraão estava dizendo não era que Deus iria providenciar o seu próprio sacrifício, mas que Deus seria o seu próprio sacrifício.
Eu penso que Abraão não sabia o que estava dizendo. Estava somente querendo distrair Isaque. Prossegue nos preparativos. Prestes a imolar seu próprio filho, Abraão é impedido por Deus. Parece que o que Deus está mostrando a Abraão e a todos nós, desde o início, é: “Eu não sou como os deuses falsos, irados, que vocês criaram, que precisam ser pacificados por sacrifícios. Eu sou o Deus que vai se sacrificar por vocês”.
Muitas profecias do Antigo Testamento sobre a cruz compreendem-na como um castigo de Deus. Os nossos irmãos do antigo regime viviam em vergonha, sentiam esse terrível senso de indignidade para estar na presença de Deus. Acreditavam que deviam dar a Deus o seu melhor, o fruto do seu corpo pelo pecado da sua alma. Mas quando Jesus vem, ele fala sobre a cruz de forma diferente. Paulo a descreve como sendo a cura de nossa vergonha e pecado, a solução que permite que nos encontremos com Deus novamente em amor e sem temor.
Podemos ver isso em todos os relatos finais dos quatro evangelhos. João 10 é outro lugar. Neste capítulo, Jesus falar sobre ser o bom pastor que dá livremente a vida pelas ovelhas. Ninguém tira essa vida dele. Portanto a cruz não matou Jesus. Ele se entregou voluntariamente. A cruz também é central em todo o livro de Romanos, especialmente nos capítulos 5 a 7. Em 1 Coríntios 1, Paulo diz que a cruz, mais do que um evento histórico, é o poder de Deus para a nossa salvação. Em 2 Coríntios 5, somos chamados de embaixadores da reconciliação. Um morreu por todos, logo todos morreram. Nós não vivemos mais para nós mesmos, mas para aquele que morreu por nós. Ele nos deu o ministério da reconciliação que convida a todos a se reconciliarem com Deus porque Deus estava em Cristo, na cruz, reconciliando o mundo consigo. Não devemos pensar que Deus estava longe, que ficou a uma distância segura da cruz e viu seu filho sofrer. Não, Deus estava em Cristo reconciliando o mundo, não mais atribuindo os pecados dos homens a eles. Isso não é só para os cristãos. É para o mundo inteiro. A boa notícia é que Deus não está mais levando em conta os nossos pecados.
Na cruz, o Pai fez o filho, que não conhecia pecado, tornar-se pecado por nós para que pudéssemos nos tornar justiça de Deus em Cristo Jesus. Esse é o último versículo de 2 Coríntios 5. Não há como assumir uma visão de castigo da cruz sem que ela entre em conflito com esse texto. Jesus não foi feito culpado por nossos pecados. Jesus foi feito pecado. Ele, que não conhecia pecado, tornou-se pecado por nós. Para quê? Não foi para que Deus pudesse castigar o pecado, mas condená-lo. São duas coisas diferentes. Podemos ver isso em Romanos 8.1,3: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. (…) Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado”.
De acordo com Hebreus, o que os sacrifícios do V.T. nunca poderiam fazer era limpar a consciência do adorador. Não permitiam que ficassem com Deus como se nunca tivessem pecado. É por isso que o sumo sacerdote entrava no Santo dos santos com a corda amarrada nos tornozelos. Ele não sabia se estava limpo ou não. Fazia o melhor, mas não sabia, pois a consciência não era purificada. Ele ainda carregava a vergonha e a indignidade da queda. Mas aquilo que os sacrifícios do V.T. não podiam fazer, Jesus fez. No seu filho na cruz, Deus consumiu ou condenou o pecado na semelhança da carne pecaminosa para que nós agora não vivêssemos mais debaixo de nenhuma condenação.
Em Cristo não há nenhuma condenação. O que me separava de Deus era eu mesmo. O que Jesus fez na cruz não satisfez algo no Pai. Satisfez algo em mim para que a condenação fosse destruída. Aconteceu o seguinte na cruz: Jesus se tornou pecado e, fazendo isso, não entrou apenas no fracasso do nosso pecado, mas também na vergonha dele.
Na cruz, Jesus ficou sabendo o que era se sentir separado do Pai que ele sempre tinha conhecido: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Eu havia sido ensinado que quando Jesus se tornou culpado dos nossos pecados, Deus teve que virar as costas para o seu filho, porque Deus não aguenta olhar o pecado. Isso não é verdade. Deus sempre pôde olhar para o pecado. Tanto que ele foi ao encontro de Adão e Eva, depois da queda. Éramos nós que não podíamos olhar para ele em nossos pecados. O pecado nos cegou para ele. Ele não se afastou de nós, muito menos de Jesus na cruz. Como isso seria possível, se estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo? É possuir uma visão muito defeituosa da Trindade pensar que Deus podia virar as costas para si mesmo, que podia abandonar a si mesmo. Isso não faz parte da natureza de Deus. Em 2 Timóteo 2.13, vemos que se formos infiéis, ele permanece fiel porque de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo. Nosso Deus é fiel até o cerne. Ele jamais poderia virar as costas para o seu filho da mesma forma como nós faríamos para o nosso.
Deus estava em Cristo, mas porque Cristo entrou em nossa vergonha, não podia mais ver o Pai que estava junto dele. Não é esse o grande problema do pecado? Já não houve momentos em nossa vida em que nos sentimos como que abandonados por Deus, completamente sozinhos? Anos depois, no entanto, pudemos ver além: ele esteve sempre muito perto, apenas não conseguíamos vê-lo, cegos como estávamos pelo pecado e pela vergonha.
Portanto o que Jesus veio fazer na cruz não é o mesmo que voltarmos para casa e matarmos o próprio filho a fim de conseguirmos amar as pessoas. Não. Deus, por meio do corpo do seu filho, estava curando algo que o pecado havia causado. Cinco coisas convergem na cruz: 1. Um Pai e seu filho (embora o Espírito também estivesse presente); 2. Pecado e vergonha; 3. O filho se tornando pecado; 4. O filho abraçando a vergonha, que ele despreza; e 5. A ira de Deus.
Aprendemos a ficar com medo da ira de Deus, do juízo de Deus. Curioso, no entanto, é observar os Salmos, algumas vezes, descrevendo as árvores batendo palmas e os outeiros dançando. O motivo? Deus está vindo para julgar o mundo, e a criação fica rejubilando. Mas basta ouvirmos que em breve Deus vem para julgar, e o terror se instala. E tudo porque não sabemos realmente o que isso significa. Quando surge para julgar, Deus vem acertar aquilo que o pecado desencaminhou. Deus está vindo tornar inteiro novamente o que o pecado consumiu. Ele vem para nos julgar, ou seja, para nos resgatar. Mas nós achamos que o propósito do julgamento é outro: Deus está vindo nos castigar.
Que castigo Jesus deu à samaritana lá no poço de Jacó? E para a mulher apanhada em adultério? Que castigo recebeu Zaqueu? Que castigo o pai do filho pródigo lhe aplicou? Não está no coração de Deus castigar. Sua intenção é resgatar. A ira de Deus não é o contrário do amor de Deus, mas a plenitude desse amor dirigida contra tudo aquilo que impede a sua afeição, o seu amor.
A melhor figura de ira que eu conservo veio de um acontecimento com a minha esposa Sara quando estávamos acampando nas montanhas com nossos filhos pequenos. O mais novo, à época com dois anos, brincava a uma pequena distância entre as árvores. De repente, começou a gritar. Sara já disparara em sua direção para resgatá-lo. Minha esposa tem funcionamento e reações diferentes dos meus. Quando eu escuto uma criança gritar, primeiro me certifico se de fato há um problema sério solicitando a minha intervenção. Mas minha mulher é uma mãe. Por via das dúvidas, ela sempre vai ao encontro da criança. Nem bem escutou o grito de nosso filho, e já estava correndo. Da rede, onde eu confortavelmente lia um livro, observei que ele estava no meio de um enxame de abelhas. Pulei da rede e gritei para Sara parar, que eu socorreria o nosso filho, pois ela é alérgica a ferroadas de abelhas, e nós não dispúnhamos de nenhum remédio conosco. Para piorar, estávamos a duas horas de distância do hospital mais próximo. Mas Sara é uma mãe; ela não para. Mais tarde, a caminho do hospital, disse-lhe que tinha gritado para que parasse. Mas para minha surpresa, ela não ouviu nada. Diante do perigo iminente, ela não racionaliza muito. Sem calcular os riscos para si mesma, ela se atirou no meio do enxame e resgatou nosso filho.
Mesmo apavorado pelas abelhas, quando vê Sara, Andy passa a ter medo dela. A expressão que vê no rosto da mãe não é nada boa. Eu conheço bem isso. Andy pensa que ela está nervosa com ele. Não sabe ainda que a ira dela não era contra ele, mas a seu favor. Sua raiva estava direcionada para as abelhas que estavam destruindo seu pequeno. Demora até Andy perceber que está sendo salvo pela mãe. Só então ele se acalma e relaxa nos braços dela.
Essa é a melhor figura de ira que eu conheço. Na cruz, vemos Deus correndo contra o enxame de abelhas por nossa causa. Pecado e vergonha estão destruindo o que ele ama. Ele não tem outra saída: “Eu vou me enfiar lá e resgatar”.
Um grande amigo morreu dois anos atrás com melanoma, um tipo de câncer extremamente agressivo. Existe quimioterapia capaz de destruir o melanoma, mas não há como ser administrada numa quantidade mínima suficiente para não matar também a pessoa antes de acabar com o tumor. Este é o problema da quimioterapia: trata-se de veneno. Meu amigo recebeu o tratamento mais agressivo que existe contra o melanoma. Os médicos deram o suficiente para não matá-lo e esperavam que a dosagem talvez pudesse resolver o problema, mas não resolveu. Meu amigo não aguentou a cura de que precisava para ser livre daquele câncer.
Essa é a nossa história. Pecado e vergonha nos infecta a todos. E a ira de Deus é a quimioterapia que cura o pecado. Mas o problema é que não resistimos à ira em quantidade suficiente que consiga purificar-nos dos pecados antes que sejamos destruídos. Não é a verdade do Velho Testamento? Todas as vezes que a ira de Deus irrompia, pessoas morriam. Quando Jesus estava na cruz e se tornou o próprio pecado, ele assumiu toda a nossa doença nele e teve que beber o cálice da ira do Pai: toda a ira que foi necessária para consumir todos os nossos pecados, pelo menos três horas de ira, até que Jesus finalmente dissesse: “Está consumado”. O que ele quis dizer com isso? O pecado foi consumido pelo amor; a ira condenou, consumiu o pecado no Filho.
Por que foi necessário consumir um ser humano perfeito se as regras diziam que somente “a alma que pecar, essa morrerá”? Como Jesus nunca tinha pecado, a ira de Deus não podia matá-lo. Ninguém podia tomar a sua vida, por isso ele a entregou voluntariamente. Jesus foi o perfeito hospedeiro para que pecado e vergonha se encontrassem com a ira de Deus. No seu corpo, Jesus assumiu a cura para todos nós. Por essa causa não há mais nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus.
Deus não estava finalmente castigando o pecado na cruz. Ele estava curando em si mesmo o nosso pecado. Quando Adão e Eva pecaram naquele jardim, Deus sabia que ele mesmo iria pagar o preço mais alto. Eis o tipo de amor que o Pai concedeu-nos a fim de que pudéssemos ser chamados filhos e filhas de Deus. Deus não estava castigando alguém para agradar a si próprio. A religião nos traz Jesus nos salvando do Pai dele. Não precisávamos ser salvos do Pai. Precisávamos ser salvos para o Pai.
Jesus não morreu para o Pai. Morreu por nós. Seria como se os médicos pudessem pegar o melanoma do meu amigo e o implantar em outra pessoa, em virtude de ela, por ter mais resistência, poder suportar o tratamento de quimioterapia
Na visão de pacificação da cruz, eu entendia como Jesus me amava, mas não como o Pai me amava. Nesta visão da cruz, que é a visão de Paulo, eu entendo tanto o amor do Filho quanto o amor do Pai. E se o meu pecado e vergonha foram tratados pela obra do Filho, então eu posso estar com Deus hoje, sem medo nem vergonha, mas com liberdade para conhecer o Deus que eu não conheço. Como uma criança pequena, posso subir no seu colo e saber que esse é o lugar mais seguro para eu estar.
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