“De sorte que transportavam os enfermos para as ruas, e os punham em leitos e esteiras, para que ao menos a sombra de Pedro, quando este passasse, cobrisse alguns deles.” (At 5:15).
Embora a palavra sombra em alguns contextos nos leve a pensar em comodismo, omissão, sugerindo inclusive um refúgio para aquele que se encontra em trevas e não quer ver suas obras reprovadas pela luz, não é esse o seu emprego costumeiro.
Quando eu e milhões pensamos em sombra, nos vem à mente o abrigo sob uma copa frondosa de uma árvore, uma brisa ligeira afagando o rosto. Alguns com um pouco mais de imaginação, ver-se-íam embalados numa rede dependurada nos galhos desta árvore.
Eu já ouvi uma certa oração que dizia : “Senhor, estar em tua presença é como estar à sombra de uma árvore.”
Estar à sombra de uma árvore é abrigar-se do calor do dia, desfazer-se do cansaço da jornada, ler um bom livro, simplesmente meditar, ou ainda, estar à toa, olhando para o nada, pensando em nada.
Uma matéria que li recentemente lançou-me uma afiada indagação : “Quando foi a última vez que a sua sombra curou alguém?” O contexto falava sobre poder, autoridade, unção. Tive que ser sincero comigo mesmo: a minha sombra nunca curou ninguém. Nem ao menos de uma gripe.
Essa pergunta não mais me saiu da cabeça. O autor da matéria se reportava aos apóstolos, cujo poder de cura encontrava-se até mesmo em suas sombras.
Comecei a pensar sobre o fato de que a ausência deste tipo de poder preocupa a muitos. Alguns, ao longo de seus ministérios, enveredam-se por atalhos estranhos. Tendo começado na submissão e na dependência do poder de Deus, dão baixa em suas “carteiras de filiação”, e se lançam como “autônomos da fé”. Passam a acreditar que o poder emana deles mesmos e já nem consultam ao Pai das Luzes. Sutilmente tornam-se semideuses. E mais: até cobram por isso.
Olhando para a vida de Pedro, Tiago, João e outros, não dá para deixar de perceber que a virtude que estava até mesmo em suas sombras, são meros reflexos de uma comunhão apaixonada com Deus, um temor de se verem a cada dia diminuídos em si mesmos para fazerem aflorar a pessoa de Jesus. Esses tais, muito mais do que se preocuparem em deixar que a sombra dos seus vestidos fosse disputada pelos enfermos, preocuparam-se em ser uma sombra de misericórdia para o aflito, uma sombra de esperança para o deprimido, uma sombra de amor para o amargurado. Viveram uma vida que serviu de abrigo para aqueles que estavam esmagados pela religiosidade dos fariseus. Preferiram eles ficarem ao sol, no ardor da caminhada, para que aqueles que tinham os pés machucados, pudessem se assentar às suas sombras. Esconderam com seus corpos, os raios dardejantes da tristeza, da fome e do preconceito e foram árvores frondosas expostas às intempéries da vida, sem jamais perderem a visão de suas vocações: fazer sombra sobre os pequeninos.
Quem tem coragem para viver uma vida assim, poderá até ter a surpresa de ver o seu reflexo curando um câncer, uma úlcera, um reumatismo. Mas somente será assim, porque escolheu ser boca, ouvidos, olhos, mãos e pés de Deus na terra. E árvore de Deus na terra.
Preocupa-me assistir aos espetáculos religiosos de nossos dias. Gente que diz ter poder, mas que não autentica esse poder na relação diária com o próximo, sobre quem Jesus faz a seguinte declaração: “Amai-o como a ti mesmo”. Curar, simplesmente por curar, torna-se algo frio e descomprometido. Curar é aliviar. Curar é amar. Porém, antes de curar, curar é sofrer junto.
O mundo espera ansioso, nestes dias, a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8:19). O mundo está exausto do estereótipo religioso que acoberta em suas sombras toda a sorte de escândalos morais e financeiros. Somente uma atitude de uma igreja restaurada e que vive uma palavra viva na face da terra, poderá provocar um rebuliço entre os homens.
Que possamos enxergar de uma vez por todas que somos a resposta da oração de muitos esfomeados, desabrigados, desempregados, desnutridos. De uma oração que insiste em chegar a Deus, não por meio de palavras, mas que brota de corações que estão gritando : ”eu preciso de uma sombra, senão morrerei”.
Escolher ser sombra de Deus na terra é ser o ouvido para quem tem algo a dizer, as mãos para quem precisa de um afago. É escolher estar exposto ao sol e à vida para abrigar os fracos e necessitados. Parece-lhe árduo? Lembre-se: Deus também faz chover sobre as árvores. Em outras palavras: no calor mais intenso da provação, Deus enche os céus de nuvens e faz sombra também sobre as árvores.