Santo Anselmo (1033-1109), monge, bispo, Doutor da Igreja, Carta 112, a Hugo, o cativo (a partir da trad. De Orval)
Continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa. Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.» (Mc. 12:38-44)
No Reino dos céus, todos os homens em conjunto, e como se fossem um só, serão um só rei com Deus, pois todos quererão uma só coisa e a sua vontade cumprir-se-á. Eis o bem que, do alto do céu, Deus declara pôr à venda. Se alguém perguntar por que preço, eis a resposta: Aquele que oferece um Reino no céu não precisa de moeda terrestre. Ninguém pode dar a Deus o que já Lhe pertence, porque tudo o que existe é dEle. E, no entanto, Deus não dá coisas importantes sem que lhes seja estimado o preço: Ele não as dará a quem não as apreciar. De facto, ninguém dá coisas que lhe são queridas a quem não demonstrar ter apreço por elas. Então, e porque Deus não precisa dos teus bens, não deve dar-te uma coisa importante se desdenhares amá-Lo: Ele apenas reclama amor, e sem amor nada O obrigará a dar. Por isso, ama, e receberás o Reino. Ama, e possui-Lo-ás [...]. Ama portanto a Deus mais do que a ti mesmo, e logo começarás a ter o que queres possuir em plenitude no céus.
Clemente de Alexandria (150-c. 215), teólogo
«E Eu digo-vos: Arranjai amigos com o dinheiro desonesto, para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito. Se, pois, não fostes fiéis no que toca ao dinheiro desonesto, quem vos há-de confiar o verdadeiro bem? E, se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores; ou há-de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Os fariseus, como eram avarentos, ouviam as suas palavras e troçavam dele. Jesus disse-lhes: «Vós pretendeis passar por justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os vossos corações. Porque o que os homens têm por muito elevado é abominável aos olhos de Deus.( Lc. 16:9-15)
Há uma riqueza que semeia a morte por toda a parte em que domina: libertai-vos dela e sereis salvos. Purificai a vossa alma; tornai-a pobre para poderdes entender o apelo do Salvador que vos repete: «Vem e segue-Me» (Mc 10, 21). Ele é o caminho por onde anda aquele que tem o coração puro; a graça de Deus não entra numa alma estorvada e rasgada por uma multidão de posses. Quem olha para a sua fortuna, o seu ouro e a sua prata, as suas casas, como dons de Deus, esse testemunha a Deus o seu reconhecimento ajudando os pobres com os seus bens. Sabe que os possui mais para os seus irmãos que para si próprio. É senhor das suas riquezas em vez de se tornar seu escravo; não as fecha na sua alma, tal como não encerra a sua vida nelas, mas prossegue sem desfalecer uma obra totalmente divina. E, se um dia a sua fortuna vier a desaparecer, aceita a ruína com um coração livre. Esse homem, Deus o declara «bem-aventurado»; chama-lhe «pobre em espírito», herdeiro do Reino dos céus (Mt 5, 3). [...]
Contrariamente, há quem acaçape a sua riqueza no seu coração, em lugar do Espírito Santo. Esse guarda as suas terras, acumula sem fim a sua fortuna, e só se preocupa em arrecadar sempre mais. Não eleva nunca os seus olhos ao céu; enterra-se no material. De facto, ele é apenas pó e ao pó há-de voltar (Gn 3,19). Como pode experimentar o desejo do Reino aquele que, no lugar do coração, traz em si um campo ou uma mina, esse que a morte surpreenderá inevitavelmente no meio dos seus desejos desregrados? «Porque onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração» (Mt 6, 21).
“O que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.” (Lc.16:15b)
O dinheiro foi concebido para facilitar o comércio, intermediando a troca de mercadorias. O dinheiro em si não tem valor, apenas representa um valor que é avalizado pelo governo que dá as garantias de estado do valor escrito naquele papel moeda. Teoricamente, a qualquer momento um cidadão poderia apresentar seu papel moeda ao governo emissor e o trocaria por ouro em seu valor correspondente. Isso se chama lastro, que supõe-se que o governo tem em seu poder ouro suficiente para cobrir todo o montante de moedas emitidas por ele. Hoje é sabido que tais garantias são muito mais virtuais do que físicas, pois acredita-se que o país tenha capacidade de honrar esse compromisso baseado na condição de sua economia de maneira geral. O lastro do dinheiro é cada vez mais virtual e menos físico.
Com isso, o dinheiro tornou-se um verdadeiro simulacro. Isto é, desvinculou-se daquilo que ele representava e assumiu um valor em si mesmo, como se aquele papel ou moeda tivessem de fato o valor nele impresso. A sociedade passou a ter uma fé inconsciente para crer nesse valor. No decorrer da história, o dinheiro passou a assumir cada vez mais uma posição divina, a representação física do deus da riqueza, a quem Jesus chamou de Mamon. Como deus, ele exige adoração e promete coisas que só Deus poderia poderia fazer. Embora ditas de maneira um tanto jocosas certas afirmações correspondem ao pensamento da maioria da pessoas, tais como “dinheiro não é problema, é solução”; dinheiro não traz felicidade, manda buscar”; “o dinheiro compra tudo”; “rico nunca vai preso”; “rico é que é feliz”; etc. Ditas com tanta freqüência, passam fazer parte do inconsciente coletivo e, como um conjunto de crenças, determinam o estilo de vida da sociedade.
É tão forte o serviçalismo que as pessoas prestam ao dinheiro que até mesmo no ambiente eclesiástico as coisas funcionam a partir dele. É muito deprimente ver pregadores na mídia fazendo apelos emocionais suplicando ajuda financeira ao público dando a impressão que Deus está mendigando, como que se também ele, o único legítimo e verdadeiro dono do ouro, da prata e de todas as coisas, também dependesse de Mamon. A impressão que se tem é que Deus se tornou refém do sistema financeiro.
Esta é a escravidão do mundo natural das aparências. Precisamos conhecer a verdade da realidade espiritual para que possamos ser libertos. O dinheiro não tem valor algum em si, a não ser aquele que atribuímos a ele. O verdadeiro valor do dinheiro é aquele que Deus lhe dá que é bem diferente do atribuído pelo homens: “o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.” (Lc.16:15b). Jesus disse isso concluindo seu ensino a respeito de não servir a dois senhores: Temos que decidir a quem vamos focar de nossa fé e dependência: em Deus ou em Mamon.
O dinheiro serve para revelar se nosso coração está, de fato, no Senhor. Se estiver, estaremos prontos a dar e não para reter e isso permitirá que Deus nos abençoe. O jovem rico quis vender tudo a dar aos pobres com medo de se tornar pobre. Cometeu a loucura de não aproveitar a chance de ser um rico de fato e não apenas de aparência, achando que o dinheiro podia cuidar melhor dele do que Deus. Como é dando que se recebe, ele impediu Deus de lhe dar. Sua fé na aparência natural o impedia de ver a realidade espiritual.
A igreja primitiva demonstrou que estava liberta de Mamon ao não adotar a prática judaica de contribuir com 10% do que recebiam, mas sim com 100% de tudo o que possuíam, para não correr o riso de servir a Mamon com 90%. Eles não estavam focados no dinheiro, mas em Deus. Isto não se resume apenas numa questão de critério de porcentagem, mas diz respeito em que princípio se baseia a atitude dos contribuintes, sabendo que com a mesma medida que medimos também seremos medidos. Serve de parâmetro para demonstrar que valor atribuimos ao reino de Deus; se ele vale nossa vida ou apenas parte dela (10%, quem sabe?). Contribuir de maneira regateada, medindo os percentuais é um método mundano, baseado no dinheiro como padrão de medida de valor, para tentar participar do reino de Deus. Isso é como usar uma chave errada para se abrir uma porta. Se para que Deus pudesse abrir seu reino aos homens, custou a vida de seu Filho, como podemos nós supor que nossa vida valha mais do que esse reino?
Que Deus abra nosso entendimento para sabermos que o dinheiro não tem valor de fato, mas apenas aparência. Vale a pena refletir que as coisas mais valorosas na vida não guardam relação alguma com o dinheiro e que qualquer pessoa, rica ou pobre, pode desfrutar delas. Se acharmos que só tem valor o que se conquista mediante o dinheiro, vamos perder o melhor da vida.
Nosso maior exemplo sempre será Jesus. Ele, que cumpriu todo seu ministério, agindo estritamente dentro da vontade do Pai, sem pedir dinheiro, quer para ele pessoalmente, quer para o ministério, iria fazer diferente agora? A igreja primitiva prosseguiu nesse caminho. Paulo pediu apenas para os pobres e não para si ou para aqueles que se associaram a ele no ministério, pois para isso usava suas mãos para fazer tendas. Não estou dizendo que eles não receberam, mas que nunca pediram. A prática do ministério auto-sustentável parte da lógica que, se ele é, de fato, de Deus, ele, que é dono de tudo, o sustenta.
Experimentar esta realidade depende de pessoas vinculadas entre si que, em comunhão, confiem integralmente no Senhor, sem fazer distinção do que é vida pessoal ou ministerial e juntas busquem conhecer e viver a vontade de Deus. Para início, cada um deve contribuir com valores que tenham significância de vida. Isso não diz respeito ao valor monetário da contribuição, mas se aquilo faz parte da vida, pois essa é o padrão de medida de Deus, como vemos no episódio da oferta da viúva pobre. Não importa se a contribuição seja de pequeno valor monetário, desde que faça parte da vida, cuja opção de contribuir custou a realização de algo, mas causou alegria. Diante do Senhor será mais importante do que a de um grande valor monetário, mas que corresponde apenas ao excedente destinado ao supérfluo.
Crer e compreender isso é a única maneira de não permitir que o aspecto financeiro sirva de instrumento de opressão interna causada por comparações pela diferença de valores dos contribuintes, de evitar o sentimento de desconfiança e de superar a famosa regra de ouro, inevitável no mundo: “Quem tem o ouro, manda!”. É imprescindível que a contribuição seja fruto da comunhão e a ela se mantenha subordinada. É assim que recebemos juntos a vida de Deus. E ela é muito mais abundante que aquilo que a maior fortuna compraria. A decisão é uma questão de fé para nos libertar da aparência natural e experimentarmos a realidade espiritual. Uma coisa é pensar que podemos ter algumas coisas que nosso dinheiro nos proporciona, outra coisa é ter tudo, como orou Jesus ao Pai: “todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas.” (Jo. 17:10) Esta é a prática da contribuição nascida na motivação da comunhão. Assim vivia a igreja primitiva. Vamos experimentar?