De Volta para a Casa

Por: Pedro Arruda Data: 1/12/2009
De Volta para a Casa

Quando Josué pronunciou “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”, ele não tinha uma casa com sala, quartos, cozinha… No máximo, uma tenda que o abrigava com sua família. Quando se referia a sua casa, portanto, não tinha em mente um edifício físico. O mesmo podemos dizer de Abraão quando se queixava a Deus que, por não ter filhos, Eliezer, o servo damasceno, seria o herdeiro de sua casa (Gn 15:2). Quando Cornélio, que era um homem temente a Deus com toda a sua casa, pediu que Pedro o visitasse, reuniu os amigos, parentes e, possivelmente, empregados e soldados que o serviam. Tudo o que estava sob a influência do chefe da família era considerado a sua casa. Isso engloba as propriedades e as pessoas que estão em seu domínio. Como os pastores que tomavam conta do rebanho de Abraão faziam parte de sua casa, podemos dizer também que os empregados de um empresário nos dias de hoje também fazem parte de sua casa. É comum que os conselhos à conduta da família cristã inclua também o relacionamento entre servos e senhor.

É nesse contexto que as igrejas se reuniam em casas. Daí a constante presença de citações de família e casa nas epístolas e no livro de Atos dos Apóstolos, como uma sendo sinônimo de outra. “Partiam o pão de casa em casa”, “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa”, “… que governe bem a sua própria casa”, etc. Assim nasciam as igrejas domésticas e da reunião delas surgia a igreja local ou municipal. Aqueles que se destacavam na Igreja doméstica eram candidatos a serem autoridades também na igreja local, como recomenda Paulo a Timóteo (I Tm 3:14).

As populações das grandes cidades eram compostas, em sua maioria, de pessoas extremamente pobres que dividiam a moradia com outras pessoas. Assim, muitas vezes, as casas eram alugadas por cômodos para abrigar as famílias. Havia também as de classe média que possuíam casas maiores e as mais ricas que possuíam grandes residências. Da expressão: “… a igreja que está em sua casa”, podemos depreender que havia os que hospedavam igrejas em suas casas. Estes não eram, por certo, os mais pobres, por contarem com espaço para isso.

Com o passar dos tempos, o lugar de reunião dentro da casa foi ampliado e, em seguida, as famílias deixaram essas residências que passaram a ser de uso exclusivo da igreja. No século IV, então, se inicia a construção de templos para as igrejas. Essa aparente evolução era na verdade uma degradação, pois a igreja afastou-se da família e esta da igreja, que se tornou instituição tal e qual as demais associações daquele período, inclusive as de cunho religioso pagão. No início, a expressão “igreja” designava uma atividade e depois passou a ser sinônimo de edifício. A igreja doméstica passou a ser vista com desconfiança a ponto de se proibir que em suas dependências se celebrasse a Eucaristia, conforme decisão do sínodo de Laodicéia (360-370). A ceia do Senhor mudara-se de uma refeição noturna para um ritual estilizado. Da sala de jantar para um salão sagrado. A liderança da família para um clero especial. Com isso estava decretada a ilegalidade da igreja original!

Através dos evangelhos, vemos que Jesus escolhia pessoas de várias tendências para a liderança. Ele reunia multidões nas montanhas e nas praias dos lagos. Os cristãos posteriores necessitavam de uma casta sacerdotal de líderes que conduzissem os cultos nos santuários. Paulo escreveu para assembléia de pessoas como o templo de Deus, os cristãos posteriores entenderam o templo como edifício. Algo no coração humano anseia por pessoas sagradas para que sirvam nesses santuários, garantindo que efetivamente sejam lugares santos, e inclusive para nos representar nesses lugares santos. Os sacerdotes levitas trabalhavam dessa maneira. A maioria das religiões tem seu lugar santo profissional. Os cristãos rapidamente desenvolveram o seu. A mensagem de Jesus era, porém, muitas vezes, acúltica. A presença amorosa de Deus deveria ser encontrada nas ervas do campo e na rotina dos pássaros (Mt. 6:26-30). O amor e o perdão tinham prioridade sobre a oração e a adoração exterior (Mt. 5:23-24).

Se estamos vivendo o tempo de restauração, é o momento de deixarmos as basílicas e voltarmos para a casa. Qualquer movimento que traga em si o risco de transformar o lar num templo faz parte de um passado que não devemos repetir. É preciso abandonar o conforto que Babilônia oferece para voltar e reconstruir Jerusalém. “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt.18:20).

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