Feridas são feridas sempre, mas quando abertas em família, elas têm um poder de latejamento insuportável. Se não são extirpadas até a raiz, com o tempo, elas causam infecção generalizada e comprometem seriamente o processo reversivo de cura naqueles que sofreram as machucaduras. Recuperar-se, por exemplo, de uma humilhação imposta pelo patrão ou pelo colega de trabalho é menos difícil do que desenvolver uma boa auto-estima após ser vítima da frieza dos pais ou do desprezo dos irmãos. Isso é tão verdade, que existem pessoas amarguradíssimas e incapazes de perdoarem a si mesmas porque vergam diante do peso esmagador de uma auto-cobrança que as faz se sentirem sempre aquém das expectativas, com um sentimento de que poderiam ter feito mais ou melhor. Dentro dos lares, há um sem número de pessoas culpadas, complexadas, diminuídas. Há um outro tanto carregando ódio mortal, esperando pelo dia de dar o troco. Há gente que não agüentou mais a pressão de ter que dormir no mesmo quarto, sentar à mesma mesa, assistir à mesma televisão e se mandou. Há gente que arrumou um casamento para se ver livre da atmosfera do lar. Há gente que começou a se meter em muitos caminhos escuros aqui fora para ver se chamava a atenção de alguém lá dentro. Há muita gente errando bastante dentro do lar, mas num quase desespero para ser melhor. Mas há também, e com tristeza o digo, gente que desistiu de lutar e adotou a postura da hipocrisia, do cinismo e da indiferença. E, essa última, tem sido a grande tragédia de muitas famílias.
A Bíblia nos deixou muitos exemplos de deslizes nas famílias. Maiores ainda são as conseqüências que tais deslizes provocaram. Cão descobriu a nudez do pai Noé e levou uma maldição pesada sobre si e sobre a sua descendência. As filhas de Ló se deitaram com o pai, após tê-lo embriagado, e arrumaram duas verdadeiras “pedras-no-sapato” para a futura nação israelita: deram a luz aos mais antigos ancestrais dos moabitas e dos amonitas. Abraão mentiu duas vezes sobre o parentesco com Sara, fazendo-a sua irmã perante Faraó e Abimeleque e, ao invés de ser uma bênção para outras nações, fez recair maldições sobre elas. Essa atitude de Abraão fez discípulos: Isaque repetiu o pai com respeito a Rebeca e Jacó repetiu o avô desde o ventre de sua mãe: nasceu com o estigma do enganador, do mentiroso e assim viveu boa parte da sua vida: enganou o irmão Esaú, enganou o pai Isaque, enganou o sogro Labão e, como conseqüência, foi enganado pelos filhos acerca de José. Como resultado de todos esses deslizes, ao lado de outros, a descendência da família de Abraão amargou 430 anos de cativeiro no Egito, a maior parte dos quais sob severa servidão. E o que dizer da família de Davi? Quanta dor nos relacionamentos da casa desse homem segundo o coração de Deus? Traição, adultério, homicídio. Esposa desprezando o marido, irmão se deitando com a irmã, irmão matando irmão, filho perseguindo o pai, filho recém-nascido morrendo como sentença contra o pecado dos pais. Quanta ferida! E todas elas abertas em família.
Contudo, família não foi estabelecida por Deus para ser o baú das calamidades, o gueto das culpas. Deus dá uma prova eloqüente disso quando resolve trazer Jesus de uma linhagem toda esquisita. Jesus, só para citar alguns exemplos, descendeu de gente como Judá, que deu continuidade à linhagem deitando-se com sua nora; de gente como Roboão, o pervertido filho de Salomão; de gente como Manassés, o mais abominável dentre os reis, que se tornou bruxo e até queimou seus filhos como oferta a espíritos malignos. No entanto, Jesus supera toda essa “maldição hereditária” para devolver à família a dignidade prometida a Abraão. Sim, família tem vocação para ser bendita. A promessa é: “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.
É tempo de restaurarmos o muro seguindo o bom exemplo de Neemias. O inimigo continuará fazendo o seu papel de nos desencorajar: “Renascerão, acaso, dos montões de pó as pedras que foram queimadas?” (Ne 4:2). Ainda que estejamos ou nos sintamos como pedras queimadas, Deus tem o poder para nos restaurar e nos fazer pedras firmes novamente que serão usadas na grande obra de restauração neste tempo do fim. Assim como na Jerusalém dos dias de Neemias, hoje, Deus dispõe o povo, por famílias, diante do muro e nos anima a pelejar pelos nossos irmãos, filhos, filhas, mulher e pela nossa casa (Ne 4:13-14). Não repitamos o erro inicial da reparação iniciada por Neemias: hoje, igualmente, grande e extensa é a obra é nós não podemos estar no muro mui separados, longe uns dos outros (Ne 4:19). É o momento de unirmos as nossas famílias para um tempo extremamente fértil de conversão de uns para com os outros (Ml 4:5-6). Seremos a geração que vai tocar na palavra profética de Malaquias quando dermos o abraço da reconciliação nos nossos e exorcizarmos de nossa casa toda a ferida, toda a angústia, toda a desesperança. Esse momento se fará acompanhar de uma abertura das janelas para respirar ar puro, para deixar o vento do Espírito Santo encher a casa. As janelas abertas também deixarão ver o que há dentro, famílias plenamente restauradas no amor de Jesus e que, numa atitude missionária, convidarão outras famílias para partilharem do Cordeiro.