“E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.” (Mateus 5:41)
No sermão do monte ou das bem-aventuranças, Jesus distingue dois níveis de espiritualidade. O primeiro é resultado da observância da lei, que o homem a tornou desprovida de espírito e a fez letra fria e mortal. O segundo baseia-se na graça de Deus e, embora se baseando também na lei, retira-se o pretexto de usar a lei a seu próprio favor. Ou seja, o amor abre mão de reivindicar direitos a si mesmo, ainda que previstos na lei.
A pregação da vida na graça em plenitude sofre uma grande resistência pelo receio das pessoas confundirem-na com libertinagem e, sem o freio da lei, praticarem coisas que a própria lei condena, com o argumento de não estarem mais vivendo sob o jugo da lei. De fato fomos libertos da lei para viver a graça; antes, porém, devemos entender que estamos libertos de observar a lei a nosso favor. O amor nos permite ir além da lei, não para expandir nossos direitos, mas sim nossas obrigações e o direito do próximo. A graça tem sido entendida erroneamente como um fator de expansão de direitos próprios. Ora, de forma alguma foi isso que Jesus ensinou ou viveu. Ele veio para cumprir a lei e não para revogá-la e assim procedeu. Quando Ele curou no dia de Sábado, estava cumprindo a lei, pois estava dando mais benefícios ao próximo. Os doutores da lei entendiam que apenas em seis dias da semana podia-se curar, mas Jesus estendeu o direito de fazer o bem a todos os dias da semana. Ele não estava usando esse critério legal a seu favor, mas sim a favor do próximo. Talvez seja este um bom parâmetro e argumento para que busquemos viver a graça.
Deus procura homens dispostos a caminhar a segunda milha. Em vários momentos de nossa vida, somos chamados, às vezes forçosamente, a caminhar a segunda milha. De maneira prática, isso ocorre quando sofremos um grande impacto em nossa vida através de uma enfermidade, luto ou outra forma que nos impõe uma grande perda. Nesses momentos sentimos que ultrapassamos a barreira da primeira milha e percebemos que somente pela exclusiva dependência de Deus, pela graça que dele emana, é que podemos suportar. Paulo ilustra isso com o caso do espinho na carne que ele desejava se livrar e aprendeu que “apenas a graça de Deus bastava“. Sim, nesses momentos mais difíceis, há uma graça especial de Deus dando condições para suportar aquela dificuldade, que causa grande admiração àqueles que estão de fora e ficam perplexos ao verem a serenidade da pessoa ao suportar com vitória a luta.
Quando o cristão está apenas na primeira milha, ele está misturando a graça com a lei. Ora se esforça para se manter em pé com integridade, ora entrega-se ao desânimo. Reclama da injustiça que sofre, lembra de seus direitos, luta, reivindica e, com tudo isso, deixa de experimentar a verdadeira graça que Deus libera àqueles que estão caminhando na segunda milha.
No caso do versículo em questão, a primeira milha é uma obrigação, é uma exigência imposta. Nenhum mérito há em caminhá-la para evitar um mal maior diante da ameaça de punição pela desobediência. A segunda milha, no entanto, é espontânea e voluntária. Caminhar a primeira milha é cumprir a lei com medo do inferno. Caminhar a segunda milha é a iniciativa de andar além da exigência, mas com o coração feliz, sem mágoa ou rancor. É a adesão ao plano de Deus por prazer, sem causar-lhe o constrangimento de estarmos sendo obrigados a fazer isso.
O caso do jovem rico ilustra com muita precisão esta situação, pois ele não teve a coragem de atravessar a primeira milha. Foi até o limite e quando Jesus o convidou a andar a Segunda milha, ficou triste e preferiu permanecer na primeira. O contrário é a experiência do sacerdote Henri Nouwen, que trocou o mundo acadêmico das melhores universidades do mundo pela comunidade de deficientes físicos e mentais e encontrou ali a ministração que desejava para sua vida.
Andar a segunda milha é conhecer um novo nível de espiritualidade e relacionamento com Deus.
Na primeira milha, confessamos e nos arrependemos pelos nossos próprios pecados. Buscamos a santificação para nós mesmos. Na segunda milha, confessamos e nos arrependemos pelos pecados dos outros, além dos nossos, como fez Daniel: “E orei ao Senhor meu Deus, e confessei, e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teu mandamentos; pecamos, e cometemos iniqüidade, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; e não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que em teu nome falaram aos nossos reis, aos nossos príncipes, e a nossos pais, como também a todo o povo da terra” (Daniel 9:4-6).
Ele assim procedia para que Deus viesse a cumprir a promessa de libertação e repatriamento de seu povo. Não orava por si mesmo, mas pela nação. Hoje, Deus procura homens dispostos a andar a segunda milha, que não olhem para si mesmos, mas para a sua promessa de volta. Não apenas de uma volta pessoal para um livramento individual, mas sim a favor de seu povo.
Precisamos de arrependimento de nosso egoísmo e buscar a santificação com outros motivos além dos nossos, como ensinou Jesus: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (João 17:19). O contra-exemplo deste ensinamento de Jesus é o de Acã, na ocasião em que escondeu a prata e a capa babilônica que tomara como despojo do inimigo, sendo que a ordem de Deus era para que nada tomassem daqueles derrotados. Jesus declarava que se santificava em favor de outros, não era apenas uma questão pessoal. O pecado de Acã trouxe contaminação para todo o arraial. Todos sofreram a vergonhosa derrota diante do povo de Ai, por causa da atitude de Acã. Davi também trouxe problemas para Israel quando deixou de se santificar e pecou fazendo o censo do povo. Moisés arranhou o testemunho que Deus queria dar quando, ao invés de falar com a rocha, de acordo com o que Deus lhe determinara, bateu na rocha expressando ira e indignação, em lugar de misericórdia e tolerância.
Sob o enfoque da segunda milha, o que podemos reconsiderar sobre o nosso conceito de vida cristã, quanto a:
- Sofrimento?
- Oração?
- Contribuição financeira?
- Tempo para as coisas de Deus?
- Tempo para a casa de Deus?
Em quais conceitos ou áreas eu preciso de arrependimentos? Como podemos obter o arrependimento genuíno?