Recentemente a Revista Veja realizou uma pesquisa em que constatou que 99% dos entrevistados disseram acreditar em Deus. Destes, 83% acreditam na vida eterna e no paraíso, e 55% acreditam no inferno ou punição eterna, porém nenhum sequer admitiu a possibilidade de ir para o inferno. Num primeiro momento, os dados dessa pesquisa nos causam uma impressão positiva, se considerarmos que a esmagadora maioria acredita em Deus. Entretanto, como sabemos não basta somente crer, até porque os próprios demônios também crêem, e estremecem (Tiago 2:19). Portanto, mais do que crer é preciso se envolver com o reino de Deus e viver segundo as regras e preceitos deste reino. Desta forma, se analisarmos de outro prisma o resultado da pesquisa aqui apontada, infelizmente teremos que nos curvar diante da sua dura e crua realidade, ou seja, a grande maioria daqueles que dizem crer em Deus, vivem enganados, iludidos e seduzidos pelo diabo no tocante ao reino de Deus.
Esse engano é patente, na medida em que notamos que ninguém daqueles que foram entrevistados sequer cogitaram de viver no inferno. As pessoas vivem para satisfazer seus desejos e sonhos, não raras vezes enveredam para a libertinagem e nem ao menos sentem o pesar de suas consciências, mesmo porque estas se acham cauterizadas pela ação enganadora do diabo. Assim, acreditam que o simples fato de crer em Deus, já é o bastante para lhes garantir o passaporte para o céu ou para a vida eterna. Mas os que assim pensam, devem saber que somente farão parte do reino de Deus e gozarão das delícias da eternidade, aqueles que se despojarem do controle de sua própria vida e conseqüentemente passarem pela peneira da renúncia e da perda, tal como as palavras de Jesus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mateus 16: 24-26). Ou como nos diz Paulo na carta dirigida aos Gálatas, no capítulo 2, versículo 20, onde lemos: “Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim.”
Portanto, a condição preponderante para que possamos fazer parte da vida eterna ou do paraíso, é passar o controle de nossa vida para o Cristo Vivo ou, em outras palavras, nos submetermos ao Senhorio de Cristo, deixando que Ele governe na íntegra o nosso ser. A questão é esta: estamos dispostos a renunciar aos nossos interesses, sonhos e desejos? Há coragem suficiente em nós para seguir os passos do Mestre e nos curvarmos diante de seus ensinamentos? Por outro lado, a pesquisa comentada acima, traz consigo um grande paradoxo, haja vista que revela números expressivos de pessoas que dizem crer em Deus, todavia em total contraste, vemos de forma escancarada toda sorte de mazelas que assolam o Brasil.
Para se ter uma vaga idéia da gravidade dessas mazelas, citamos alguns dados sócio-políticos de nosso país: É sabido que o Brasil é conhecido como o país do futebol e do carnaval. O futebol, a cada dia que passa, recebe denúncias de mais corrupções e falcatruas. Já o carnaval se apresenta como palco para a prática desvairada da luxúria, bebedeira, vícios e toda sorte de prazeres, aliás o próprio nome sugere, pois afinal se trata da “festa da carne”. Mas não é só, o Brasil está entre os países que possuem a pior distribuição de renda, já que existem atualmente 23 milhões de brasileiros vivendo em pobreza extrema, o que é inadmissível a considerar que o Brasil é o mais rico entre os países com maior número de pessoas miseráveis. (Conforme matéria publicada pela Revista Veja em 23 de janeiro de 2002, pág. 82). Engrossa a lista dos dados negativos a rede de prostituição, que aliás é alarmante, incluindo a prostituição infantil. Soma-se a isso a violência que reina e cada dia é mais assustadora.
Sem falar que os nossos políticos são ridicularizados, a nossa justiça (Poder Judiciário) é cada vez mais morosa e se acha praticamente desacreditada. E pior de tudo é que toda essa ignomínia desenrola-se diante de um país, onde quase a totalidade da população diz crer em Deus. Em face desse gritante e notório contraste, algumas indagações saltam aos olhos, quais sejam: O que Deus representa para estas pessoas? O que buscam as pessoas que freqüentemente lotam os templos suntuosos das Igrejas? Como reagem quando ouvem falar de pecado, santidade e arrependimento?
Para nos auxiliar a responder toda essa gama de indagações, nos valemos do texto descrito no Evangelho de João 6: 26, que diz: “Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais miraculosos que vistes, mas porque comestes do pão, e vos fartastes. Um dia antes de Jesus dizer aquelas palavras, Ele havia operado o milagre da multiplicação dos pães. Com esse milagre, mais do que mostrar o poder de Deus, Jesus queria que as pessoas compreendessem que Ele era, é e sempre será o pão vivo, o único que pode saciar e refrigerar a alma do homem, e todo aquele que comer deste pão não morrerá, mas antes viverá para sempre: “Mas aqui está o pão que desce do céu, do qual se o homem comer não morre. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. Este pão é minha carne, que eu darei pela vida do mundo” (João 6: 50 e 51).
Tal como essa multidão, muitos daqueles que dizem crer em Deus, o fazem por pura conveniência, colocando o Criador numa distância inatingível e só lembrando dEle para avalizar e endossar seus projetos. Ou quando se acham em situação adversa, buscam-nO para alcançar a bênção, resolver este ou aquele problema, tudo em nome do próprio interesse. Contudo, se esquecem que Deus é um Deus vivo, presente e totalmente acessível, que deseja fazer parte de nossa vida e, na qualidade de Pai amoroso que é, nos proporcionou a maravilhosa graça de vivermos eternamente com Ele.
Portanto, não devemos nos esforçar para saciarmos a nossa própria vontade ou para vermos concretizados nossos planos, nossos ideais, mesmo porque todas estas coisas perecerão, mas antes devemos sim trabalhar para que Cristo, o pão vivo, seja a nossa comida, para que desta forma a vida eterna seja uma realidade para nós. “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará, porque Deus, o Pai, o marcou com seu selo.”
Quando Jesus proferiu diante da multidão que Ele era o pão vivo, até mesmo vários de seus discípulos que ouviram seus ensinamentos e presenciaram seus milagres o abandonaram, pois acharam essa palavra muito dura: “A partir de então, muitos dos discípulos voltaram atrás e já não andavam com ele.” (João 6: 66). De fato o discurso é duro, pois para aceitar Jesus como o pão vivo que desceu do céu e alimentar-se deste pão, imprescindivelmente é preciso viver a vida nos moldes que Ele (Jesus) estabeleceu, isto é, com observância de suas regras e preceitos e isso deveras não é fácil, mas é a única condição para herdarmos a vida eterna. “As palavras que eu vos disse são espírito e vida.” (João 6: 63b). Desta feita, qual será a nossa postura diante desta palavra? Vamos continuar a tolerar o pecado sem qualquer pesar? Vamos continuar a dizer que cremos em Deus, porém sem ter qualquer ligação ou envolvimento com Ele? Até quando permitiremos que os conceitos e costumes do mundo nos influenciem?
João Batista quando se deparou com os fariseus e saduceus, foi logo os saudando com duríssimas palavras: “Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi frutos dignos de arrependimento. E não penseis que basta dizer temos por pai a Abraão. Eu vos digo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo” (Mateus 3: 7-10). Como ressalta João Batista, não “basta dizer temos por pai a Abraão”, ou trazendo para a nossa realidade, não basta apenas expressar por palavras a fé em Deus ou simplesmente dizer crer nEle, ou ainda, se auto-rotular filho dEle, mas é preciso produzir frutos dignos de filhos de Deus, cuja essência é o amor. Exatamente por isso, João Batista adverte os fariseus e saduceus, sobretudo para que eles buscassem o arrependimento, isto é, a mudança de comportamento, de atitude, de pensamento, enfim que se despojassem de seus conceitos, para viver segundo os ensinamentos ditados pelo Mestre, cujo reino estava na iminência de surgir, a considerar que a missão de João Batista era proclamar e anunciar a vinda de Jesus e a implantação de Seu reino.
Em outros termos, João Batista estava dizendo para os fariseus o seguinte: Chega de viver na hipocrisia, no legalismo, no egoísmo, chega de desprezar os pobres, os paralíticos, os que estão à margem da sociedade, pois é chegado o reino, onde tais atitudes são intoleráveis, uma vez que a base desse reino é alicerçada no amor. “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. O segundo, semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. “Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt 22:34-40).
É importante também ressaltar que as delícias deste reino somente podem ser desfrutadas por aqueles que estão doentes e reconhecem tal situação: “Não necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes” (Mateus 9: 12). Nesta linha de raciocínio, fica fácil entender o texto de Isaías 61:1-3, uma vez que o teor do referido texto é totalmente dirigido para aqueles que padecem de algum sofrimento, vejamos: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar as boas-novas aos pobres. Enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e abertura de prisão aos presos, a apregoar o ano aceitável do Senhor, e o dia da vingança do nosso Deus, a consolar todos os tristes, e ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de alegria por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado.”
Voltando aos fariseus e saduceus, podemos imaginar e até mensurar o constrangimento por eles vivenciado, sobretudo a considerar que eram pessoas religiosas, alguns revestidos de autoridade eclesiástica, conhecedores da lei, ao ouvirem, diante de uma multidão, incisivas, enérgicas e, de certo modo, até ofensivas palavras, ditas por um simples homem, que aliás vivia no deserto. Mas essa era a única condição para aqueles homens, que também diziam crer em Deus, participarem da vida eterna, ou seja, arrependendo-se, deixando de lado a hipocrisia, suas ideologias e alimentando-se do verdadeiro alimento que é Cristo.
No entanto, sabe-se que as palavras duras, tais como essas proferidas por João Batista, não raras vezes, não são bem recebidas, a considerar que elas mexem com o orgulho e a vaidade do ouvinte, e assim, se este não der vazão, isto é, abrir o coração e reconhecer seus pecados e que necessita do perdão de Cristo, pode ocorrer drásticas conseqüências para ambos os lados, ou seja, tanto para aquele que fala, como para o que ouve.
Cabe aqui, porém, um breve comentário, somente para diferenciar as conseqüências, retro declinadas, já que certamente serão sempre mais graves e penosas para aqueles que ouvem e rejeitam aquilo que ouviram, pois se os que falam estiverem verdadeiramente ligados com o Senhor, ainda que percam a suas vidas (morram), ou que passem a ser odiados, na realidade estarão carimbando o passaporte para a vida eterna: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 16: 25). Isto posto, veremos a seguir alguns exemplos na Bíblia em que a palavra dura e verdadeira trouxe graves conseqüências para os personagens envolvidos.
Iniciamos com a morte de João Batista, que foi decapitado por denunciar o pecado de Herodes, o qual mantinha uma relação ilícita e pecaminosa com sua cunhada Herodias, ou seja, esta era mulher do irmão de Herodes. A denúncia de João Batista gerou um ódio extremo no coração de Herodias, ao ponto de ela desejar matá-lo, e assim o fez logo na primeira oportunidade que teve (Marcos 6: 17-28). Aqui vemos que Herodias preferiu ouvir a voz da conveniência a refletir nas palavras de João Batista e, conseqüentemente, arrepender-se e enquadrar-se no reino que estava para surgir. E exatamente por isso, o ódio tomou conta de seu coração. Herodes, por sua vez, foi covarde, já que não obstante respeitasse João Batista, escolheu continuar a viver no pecado e, por isso, atendeu ao pedido feito pela filha de Herodias (a cabeça de João Batista servida numa bandeja).
Noutra situação, o rei Acabe confessa o ódio que sentia pelo profeta Micaías, haja vista que este não profetizava aquilo que o rei desejava ouvir (1 Reis 22:7,8). Nesse passo, havendo ocasião para uma determinada batalha, o rei Acabe estava assentado juntamente com o rei Josafá, cada qual em seu trono, diante de uma praça, vestidos de trajes reais e ouvindo todos os (falsos) profetas profetizarem diante deles. Inclusive, havia entre eles, um mais ousado de nome Zedequias que profetizava até mesmo o tipo de arma que seria utilizada para a batalha e como seriam feridos os inimigos. E os demais profetas confirmavam aquilo que era profetizado por Zedequias, tudo conforme se vislumbra no texto narrado em 1 Reis 22: 10-12. Evidentemente, as palavras de encorajamento e de triunfo proferidas pelos falsos profetas foram como uma brisa para o ego do rei Acabe, até porque quem não gosta de receber elogios e de ser adulado?
Porém Micaías fora chamado para também falar aquilo que era agradável aos ouvidos do rei. Todavia, como homem de Deus que era, não se sujeitou aos caprichos do rei, antes preferiu pôr sua própria vida em risco quando disse: “Tão certo como vive o Senhor, o que o Senhor me disser, isso farei” (1 Reis 22: 14).
Como a batalha pretendida pelo rei Acabe não estava nos planos divinos, Deus, através de Micaías, disse para o rei esquecer tal pretensão e voltar cada um em paz para a sua casa. No entanto, tal palavra frustrou o rei, pois não era o que ele queria ouvir, mesmo porque almejava ardentemente ir ao campo de batalha, já que era a oportunidade que tinha de aumentar o seu poder e estender seus domínios. Obcecado pelo seu desejo, o rei Acabe não deu ouvidos ao profeta Micaías, mas antes preferiu ouvir a voz de seu orgulho e vaidade e acabou formalizando a batalha, cujas conseqüências foram a derrota e humilhação do povo de Israel e a morte do rei Acabe, que aliás foi morto por um flecheiro que atirou a esmo, ou seja, ao acaso, e atingiu fatalmente o rei (1 Reis 22: 34-37). Micaías também desmascarou os profetas que induziram o rei a ir à batalha, chamando-os abertamente de mentirosos. Dentre tais profetas, Zedequias foi o que mais se abalou, a ponto de agredir a face de Micaías, tudo conforme relata 1Reis 22: 22-24. E nós, continuaremos a dar ouvidos aos falsos profetas? Que no nosso contexto pode ser entendido como “as vozes do mundo”, que continuamente nos convidam à pratica de toda sorte de pecados, sem qualquer pesar. Continuaremos a nos curvar ao som daquelas vozes só porque agradam nossos ouvidos, aliciam nosso ego e vaidade e, não raras vezes, nos dão a sensação de conforto e prazer? Lembremo-nos do rei Acabe.
Deus tem nos dado nestes dias mais uma chance de olharmos para dentro de nós mesmos e reconhecermos que somos sujos, pecadores, fracos e hipócritas, principalmente porque o nome do Criador vive em nossos lábios, contudo desprezamos a Sua voz e, tal como o rei Acabe, preferimos ouvir outras vozes. Somente nessa condição, ou seja, de reconhecermos que estamos doentes é que teremos a oportunidade de sermos medicados e devidamente curados (Mateus 9: 12).
Esse é o princípio de verdade expresso em toda a Bíblia, ou seja, o homem deve reconhecer a sua condição de caído e que precisa do perdão e da misericórdia de Deus: “Então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João 8: 32).