“Quem ama e renuncia, permanece”

Por: Maurício Bronzatto Data: 1/12/2009
“Quem ama e renuncia, permanece”

DEUS está à caça das ovelhas desgarradas. Ele procura, diligentemente, uma de cada vez, e quando as encontra, põe-nas nos ombros, cheio de alegria e vai para casa. E então, segue-se o banquete celestial. Não faltam anjos para a celebração. Há, portanto, nos céus, maior alegria por um só pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos que “não necessitam de arrependimento”. Essas últimas palavras de Jesus “não necessitam de arrependimento”, soam mais como uma alfinetada no comportamento meramente religioso dos fariseus que não poupavam críticas ao fato de Jesus se sentar com os cobradores de impostos e publicanos. Ainda sobre a alegria contagiante de Deus ao receber de volta as ovelhas desgarradas, Lc 15:20 nos diz “…quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou”. Jesus nos ensina que tão logo Deus percebe seus filhos dando meia-volta no sentido de voltar para o lar, Ele sai em desabalada carreira para tomá-los nos braços e celebrar o retorno.

É comum identificarmos o filho mais novo como sendo o filho pródigo, carente de um lar e de um pai. Esse filho é o que podemos chamar de “pródigo tradicional”, ou seja, aquele que esteve na casa do Pai, partiu em retirada, mas um dia, arrependido, resolveu voltar. Há, entretanto, dois outros pródigos nesta parábola narrada por Jesus: “ o pródigo natural”, representado por aqueles de terra longínqua que foram companheiros de vida dissoluta do filho mais novo, ou seja, aqueles que nunca experimentaram das delícias da casa do Pai e que precisam fazê-lo e, em último lugar, de uma maneira muito sutil, Jesus nos apresenta um terceiro filho pródigo, o filho mais velho, que, embora nunca tenha saído fisicamente da casa do Pai, encontra-se também perdido. A esse último chamaremos “pródigo religioso”. É alguém que mesmo estando na casa do Pai e assim o chamando, emocionalmente é empregado, escravo e não filho.

Quando se está diante do ansioso apelo do Pai, que escancara as portas de Sua casa e fica à espreita aguardando a silhueta de seus filhos no horizonte, muitas são as atitudes que provocam nos pródigos o desejo de retornar, mas nenhuma é tão essencial quanto a atitude de arrependimento. Sabendo que só podem ser encontrados aqueles que se acham perdidos, o primeiro passo primordial é arrepender-se. E esse arrependimento não pode ser comedido, disfarçado, aparente, mas totalmente radical, inteiro, a partir das entranhas.

Jesus nos coloca em uma cena um tanto quanto constrangedora, quando descreve o ocorrido em um jantar na casa do fariseu Simão (Lc 7:36-50). O anfitrião é surpreendido por uma pecadora da cidade que irrompe na sala do jantar se atirando aos pés de Jesus, lavando-os com lágrimas e enxugando-os com os próprios cabelos, ungido-os com ungüento e não cessando de beijá-los. O fariseu que até então tratara Jesus de igual para igual e nem mesmo cumprira para com o seu ilustre convidado os cerimoniais do judeus (lavar-lhe os pés à entrada, ungir-lhe a cabeça com óleo e dar-lhe o ósculo de boas-vindas), teve naquela noite talvez a maior lição de sua vida, quando vê, na íntegra, aquela pecadora o precedendo no reino dos céus, excedendo a sua justiça. Jesus perdoa os muitos pecados daquela mulher atestando que ela “muito amou”. E acrescenta que “aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama”. Nessa declaração de Jesus, subjaz algo contundente: Aquele a quem pouco se perdoa é porque pouco se arrepende, pouco reconhece a sua miséria, pouco se aflige, pouco se quebranta, pouco se expõe. Jesus pede transparência, coerência, humilhação, contrição.

Deus tem confrontado a religiosidade dos homens, sobretudo dos de dentro da Igreja. Deus e religião nada têm em comum. Religião é morte, Deus é vida. Religiosos eram aqueles que impediram Bartimeu de de gritar e “incomodar” o mestre; era o jovem rico, cuja vida exterior era irrepreensível, um exímio guardador de mandamentos, mas que não conseguiu autenticar o seu discurso entregando os seus bens para proveito dos pobres. Esse não conseguiu seguir a Jesus, pois quem o faz rompe com a religiosidade. Religioso era Nicodemos que, mesmo doutor da lei, necessitava nascer de novo. Religiosa era a multidão de curiosos que se acotovelava para ver Jesus entrar em Jericó em contraste com o cobrador de impostos Zaqueu que se esforçou para subir na árvore e ver quem era Jesus. Religioso, dentre tantos, foi Simão, o fariseu, que menosprezou Jesus em seu coração, achando que Deus não pode comer com prostitutas e pecadores.

Dessa forma, muitos que se acham próximos de Deus, não passam de freqüentadores de reuniões, tocadores de instrumentos. Há muitos, cujos lábios raramente proferem mentiras, mas as suas vidas são uma mentira se comparadas à verdade do evangelho.

Quem tem a coragem para desnudar o coração, confessar os pecados como a pecadora do texto, esse voltou para casa. E a propósito: onde está a confissão de pecados na Igreja?

Um outro texto que confirma o que foi dito até então é o de Mc 8:22-26, quando Jesus cura um cego de Betsaida em duas etapas, num contexto onde há pouco repreendera os discípulos por discutirem pelo fato de não terem levado pão suficiente, momentos depois de terem visto a segunda multiplicação de pães. Jesus diz-lhes: “Não entendeis ainda?”

Quando cura o cego em duas etapas bem em frente dos discípulos, dá-lhes a lição de que precisavam de uma segunda unção para verem perfeitamente. Conquanto esse texto possa se aplicar à vinda do Espírito Santo em Pentecoste, fala-nos de uma realidade imediata: a conversão da cegueira em visão plena. Quando se enxerga a Deus como Ele é, tem-se a chance de voltar para casa e receber o abraço carinhosos do Pai.

Uma vez em casa, surge o desafio: como permanecer? Como não se tornar pródigo novamente? Depois de estar em vestes novas, anel no dedo, sandálias nos pés e comendo do bezerro cevado, como não se desviar? Como renunciar? Amando!!! Jesus diz que quem ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo, cumpriu toda a Lei. Ele mesmo nos pergunta: Tu me amas? Se a resposta for afirmativa, cabe-nos uma missão: “apascentar as suas ovelhas” (Jo 21:15-17). Conforme o encontro do cego de Betsaida com Jesus, aquele que se vê curado da cegueira da lama, passa a olhar o próximo como próximo e não como árvore que anda. Quem ama, cuida. E quem está nesse grau de comprometimento, permanece.

Em segundo lugar, Jesus nos adverte: “Quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; mas quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (Jo 21:18). Jesus também está falando sobre amar e renunciar. Esses são os dias da maturidade espiritual, mas para chegar lá, sempre é importante prosseguir. Amar a Deus de verdade é um exercício de abandonar-se à Sua vontade. É ir para lugares onde o Pai indica, ainda que a contragosto.

Em Ezequiel, capítulo 47, encontramos um texto muito revelador sobre o nível de relacionamento gradativo que Deus espera dos seus filhos, daqueles que fizeram opção por voltar. Deus sabe que se tal propósito de entrega não se realizar em cada um de seus filhos, dificilmente reunirão forças para permanecer na casa do Pai. Deus precisa reverter a prioridade de seus filhos, desenraizá-los de tamanha secularização de seus dias. Quando Deus apanha o profeta Ezequiel no cativeiro babilônico e em visões o transporta à terra de Israel (Ezequiel 40:1-5), entrega-o à companhia de um anjo que estava nas proximidades da cidade santa. Depois de o anjo lhe dizer que observasse atentamente tudo o que iria contemplar para poder transmitir à casa de Israel, aparece com uma cana de medir em uma das mãos. O interessante é notar que a cana media seis côvados, que era uma medida usada pelos judeus, mas nessa cana que o anjo portava, cada côvado tinha um palmo a mais. Outro detalhe interessante é que a medida que se aproximam da Jerusalém futura, Ezequiel nota que não se trata da Jerusalém terrena, há pouco incendiada e pilhada pela Babilônia, mas da Jerusalém futura, gloriosa, prometida aos santos de Deus. O que se segue então é a medição do templo, bem como de cada um dos seus compartimentos. Deus, a partir do côvado celeste, contendo um palmo a mais, insere no espírito do profeta a nova medida das coisas, a nova maneira de apreciá-las, de aprender sobre elas, convidando-nos todos a um passo a mais, a levar a Lei à perfeição, a dar a outra face ao que nos ferir em uma, a dar também a capa ao que nos tirar a túnica, a caminhar duas milhas com o que nos obrigar a caminhar uma (Mt 5:38-42).

O anjo faz o profeta voltar à entrada do templo e contemplar as águas saindo por debaixo de seu limiar (Ez 47: 1:12). O anjo então mede mil côvados e faz Ezequiel passar pelas águas, águas que lhe davam pelos artelhos. Aqui começa a caminhada à sombra do Onipotente, daqueles que nasceram de novo e receberam o Espírito de filiação. Entrar nas águas de Deus até os artelhos, fala-nos sobre mudar os nossos caminhos, pois os pés podem nos levar tanto para os vícios quanto para a ausência deles. Os pés podem nos levar às casas de prostituição, mas também podem nos levar à casa do Senhor. Portanto, entrar nas águas até os pés, significa mudar os caminhos. Mas para quem já molhou os pés, Deus mede mais mil côvados e nos convida entrar nas águas que agora dão pelos joelhos. Os joelhos falam-nos sobre equilíbrio, flexibilidade. Quem entrou nas águas até os joelhos, tornou-se temperante, tem bom senso, discerne melhor os caminhos, equilibra-se diante dos revezes da vida e torna-se bastante flexível para a obra e maleável para mudanças. Mas o anjo prossegue: mede mais mil côvados. O profeta entra nas águas e agora elas estão tocando os seus lombos. Que analogia poderemos fazer com os lombos? Os lombos têm a ver com o suportar fardos, responsabilidades, suportar a carga dos mais fracos, suportar tribulações, suportar os “tratamentos” de Deus. O anjo, porém, apresenta ao profeta um novo degrau: mais mil côvados. E agora ele está diante de um rio, cujas águas são muito profundas, caudalosas, rio pelo qual não se pode passar a não ser a nado ou carregado pelo anjo. O alvo final de Deus é este último: entrar nas águas profundas, onde não há apoio para os pés, onde as ondas nos agitam de um para outro lado. Se num primeiro momento as águas estão pelos artelhos, há condições plenas para se andar contra as correntes. Quando as águas estão pelos joelhos, a caminhada torna-se mais lenta, porém não menos controlada pela vontades próprias. O próximo estágio imputa-nos maiores dificuldades, pois quem está nas águas até os lombos, perde grande parte da mobilidade própria, pois depende da tranqüilidade das águas para se locomover. Finalmente quem se lança às águas profundas, estendeu as mãos para ser conduzido por outro e, certamente, irá a lugares “indesejáveis”, mas cujo caminho proporciona a bênção de permanecer na casa do pai, não como religioso, mas como filho, provando da abundância que esta casa oferece.

Jesus ensina-nos, na prática, uma tremenda disciplina: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que os vossos corações não se sobrecarreguem de glutonaria, embriaguez e dos cuidados da vida, para que aquele dia vos pegue de surpresa, como uma armadilha. Pois cairá sobre todos os que habitam na face de toda terra. Vigiai em todo tempo, e orai para que sejais havidos por dignos de escapar de todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do filho do homem” (Lc 21:34-36).

Bem-aventurados os que assim procederem, porque também desses é o Reino dos céus.

Comentários

Deixe um comentário





Copyright 2010 - Todo os Direitos Reservados. GrupoNews