Ao nos criar, Deus assinou a sua autoria marcando uma coisa muito importante: a nossa singularidade. Cada um de nós é diferente de outro porque não somos criados numa produção em série, mas cada um mereceu particularmente a atenção de Deus impedindo nossa repetição . Por ironia, é exatamente aquilo que traz a marca de Deus em nós e dá a potencialidade para a realização do amor, que torna-se também a maior dificuldade para a concretização do amor de Deus.
O verdadeiro Deus só poderia ser como é sendo Triúno. Todos os deuses concebidos pela mente humana não podem atingir a perfeição em amor, mesmo quando se trata de religiões chamadas mais evoluídas que admitem um deus único, porém desprovido da Trindade. Na epístola de São João, aprendemos que Deus é amor . Ora, o amor não pode existir por si só, autonomamente. Ele só existe a partir de uma relação de diferentes e não de uma auto-relação. O pseudo amor que se concretiza numa auto-relação não é amor, é egoísmo. Nesta realidade, ele sai do ser e volta para o próprio ser de onde saiu e não cumpre o seu propósito que o caracteriza. Deus estabelece a seguinte hierarquia para a concretização do amor verdadeiro: 1) Amar a Deus sobre todas as coisas; 2) Amar o próximo; 3) Amar a si mesmo como medida do amor para com o próximo.
Mesmo antes de haver a criação, Deus já exercia o amor. Isto somente era possível pela Trindade. O amor fluía de uma pessoa para a outra. Foi nesse ambiente que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Verificamos assim que a questão da Trindade não é uma doutrina periférica, mas algo essencial para Deus ser o que é e, conseqüentemente, sermos o que somos. Ou seja, só somos como somos porque Deus é Triúno. Assim sendo, eu só posso exercer o amor porque o outro não é eu. Para isso, o outro tem que, necessariamente, ser diferente de mim, pois do contrário, estaria amando a mim mesmo e isso não seria o amor verdadeiro. O fato de o outro ser diferente de mim deveria ser motivo de louvor e engrandecimento a Deus. Quando o outro manifesta essa diferença, é a grande oportunidade que se tem de demonstrar amor e, por sua vez, mostrar Deus. Nesta diferença, devemos considerar não apenas aquelas congênitas, sobre as quais a pessoa não tem nenhuma decisão, mas também aquelas adquiridas ao longo da vida, que faz as pessoas se distanciarem umas das outras. Ambos os tipos de diferença podem ser uma oportunidade para a manifestação do amor de Deus.
Essas diferenças não podem ser restritas apenas às pessoas que guardam certas semelhanças comigo. Não posso convidar para meu banquete apenas aqueles que têm condições de retribuir-me, pois isso é totalmente inócuo. Não posso saudar apenas àqueles que me saúdam. Minha justiça deve ultrapassar a dos escribas e fariseus para que eu possa entrar no reino dos céus. Quanto mais marcante for a diferença entre eu e meu próximo, maior é minha condição de mostrar o amor e mostrar Deus-amor. Essa relação vemos na atitude do bom samaritano. Não se esperava dele a atitude de ajuda. Vemos também isso na oferta da viúva pobre em contraste com a riqueza do templo e do próprio Deus. O que poderia uma viúva pobre contribuir para com a grandeza de Deus? Para os homens, aquela oferta pouco ou nenhuma diferença fazia na contabilidade da Igreja, diferente com o que ocorreria com a oferta do jovem rico ou de Ananias e Safira. Mas exatamente porque podiam dar do que estava sobrando, não se estabelecia diferença entre eles e Deus, pois eram auto-suficientes em si mesmos, não dependiam de Deus. Assim também são aqueles que se acham justos aos seus próprios olhos: não precisam de Deus. Ao contrário, quem é muito perdoado, também ama muito, pois através dele Deus tem a oportunidade de mostrar o seu amor.
De forma extrema, assim também ocorre com aqueles que são deficientes físicos ou mentais. Eles se diferenciam tanto das demais pessoas e, justamente por isso, apresentam enormes oportunidades da manifestação do amor de Deus quando isso é entendido por outra pessoa. Tais pessoas, antes de serem vistas como pessoas que precisam de caridade, deveriam ser compreendidas como instrumentos de Deus para a manifestação de seu amor na relação com outras pessoas .
Em outro extremo, também podemos perceber a oportunidade da manifestação do amor de Deus quando se trata de pessoas marginalizadas não por deficiência física ou mental, mas sim social. Pessoas deficientes socialmente são aquelas que praticam crimes e violam a lei. Exatamente por tão extrema diferença é que se estabelecem grandes oportunidades para a manifestação do amor de Deus quando se realiza um relacionamento com o cristão . Ainda noutro extremo, também conhecemos o trabalho de atendimento aos pobres e doentes, que por tão miseráveis que são, não recebem qualquer atenção da sociedade em geral, mas quando pessoas resolvem dar a vida por eles, o que se vê é a manifestação do amor de Deus . Esses exemplos guardam muita proximidade destes cristãos com Estevão e outros pela atitude de amor que deixaram exalar na relação com outro diferente .
Só posso manifestar o amor de Deus à medida que entendo a necessidade da diferença entre eu e o outro para que ele ocorra. Só podemos crescer mais na vida espiritual se aprofundarmos nossa experiência de amor. Para isso, é imprescindível que vejamos nosso próximo como uma obra de Deus e não como algo de categoria inferior. Ainda que se trate de um marginal, deficiente, pobre, doente ou mesmo um tirano, ele continua sendo uma pessoa e como tal, um instrumento, ainda que em potencial, para ministrar algo de Deus para nossa vida. É tempo então de começarmos por nós mesmos, expondo nossas diferenças e verificando no que precisamos mudar e aplicar a cruz em nossas vidas. O Evangelho é para ir. Não se pode imaginar o anúncio das boas novas sendo feito de maneira passiva, esperando que os interessados tomem a iniciativa de vir até nós para sabê-las. Ir não significa apenas uma aproximação física do ouvinte, mas uma interação com a vida dele. O anúncio desprovido de empatia traz em si uma atitude de juízo, pois acentua-se a distância entre o salvo e o não-salvo. Aqui cabe o exemplo maior de Jesus Cristo que “…sendo em forma de Deus não teve por usurpação o ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens e, achando-se na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte e morte de cruz”.
É preciso disposição, coragem e maturidade para amar não apenas pelas semelhanças que o próximo tem comigo, mas principalmente pelas diferenças. As diferenças físicas, de pensamento ou mesmo as espirituais não são desculpas para deixar de lado o exercício do amor. Historicamente a Igreja tem se dividido devido as diferenças entre as pessoas, contradizendo com isso todo o ensinamento de Jesus. Tais divisões têm produzido amargura tanto entre os que ficam como também entre aqueles que saem para novas empreitadas, embora, ambos acreditando estar sendo dirigidos pelo Espírito Santo. É difícil para Deus abençoar neste ambiente de amargura.
Neste tempo é preciso que os pais se convertam aos filhos e os filhos aos pais, não apenas no seio doméstico, mas também nas igrejas entre pais e filhos espirituais que carregam uma guerra que muitas vezes atravessa gerações. Creio que esta será uma mensagem com a qual poderemos edificar a Igreja. Por isso, que tal começarmos em nós, louvando a Deus e tendo em conta que as diferenças que trazemos são oportunidades para crescermos em amor? Se assim entendermos, não haveremos de ter receio de nos expor e não sermos compreendidos.
Salmo 139:13-16 – I Jo 4:16
Vide a filosofia de trabalho n’Arca, comunidade para deficientes “amigo especial”, por Jean Vanier e Henri Nouwen, em “A história da Arca”, “A espiritualidade da Arca”, “Adam, o amado de Deus”, etc.
Vide “A cruz e o Punhal”, de David Wilkerson, trabalho que originou as casas de recuperação “Desafio Jovem: e outras no mundo inteiro.
Vide o trabalho de Madre Tereza de Calcutá realizado entre os pobres e doentes na Capital da Índia.
Atos 7:54-60. Só uma atitude de amor de Deus poderia levar Estevão a perdoar seus algozes, pessoas tão diferentes dele.
Germano B./ Americana - 10/07/2011 ás 15:18
Texto lindo. As verdades profundas daqui continuarão a reverberar na Igreja pelas gerações à frente, eu tenho acreditado nissoo